segunda-feira, novembro 30, 2009

FMAN B-SIDES

Bom, digo desde já que este é o texto mais ridículo desta série. Novamente, trata-se de um poema cuja concepção e realização não estão registradas em minha memória. Graças a Deus. Como dizem por aí, se você não lembra, é porque não fez. Prefiro enganar-me assim. Analisando o texto, vê-se rimas forçadas, ingênuas. O sentido do poema inexiste, acredito, e as rimas trabalham apenas para si. Com um pouco de esforço, e se fosse numa linguagem mais simples, ele poderia até ser uma letra de uma música mais lenta de pagode. Enfim, divirtam-se canalhas e riam à vontade!
P.S. Se você não sabe o que é o FMAN B-SIDES, procure o primeiro post da série logo abaixo!

estou a mando de morrer.
a mando tal e qual
o mandato que decreta
o fim de todo carnaval
crendo, que, se de ver
a chama por trás
de um gesto carnal
apague a sede de não se ter
qualquer ordem banal
nascida como um bebê em dia de natal.

(ARGHHHHH!)

sexta-feira, novembro 20, 2009

A mais nova piração de Jorge Barbosa Filho (III)



É isso aí! Mais um da ótima série de cartazes do Jorge. Cliquem na imagem e divirtam-se, canalhas!

quarta-feira, novembro 11, 2009

FMAN B-SIDES


Okay, pessoal, após 3 anos, decidi abrir a caixa preta do meu período negro, vivido entre 2005 e 2006. Remexendo o pc descobri diversos arquivos que nem fazia ideia que existiam. Fazendo um esforço, lembro que todos foram escritos sob condições mentais adversas; perturbação, caos, todos em madrugadas intermináveis na frente da tela fazendo coisas proibidas e enchendo o cu de cachaça. É hora de vocês, leitores, terem, de grátis, um ticket para meu inferno pessoal. Esta é a nova série do blog, meus b-sides, textos nonsense, confissões, projetos de poemas, etc. todos feitos de dentro do olho do furacão.
O primeiro da série é bastante emblemático: os amigos mais fiéis lembrarão que este blog nasceu em 2005 sob o título "O cara mais chapéu de todos os tempos". Pois bem, publico o poema homônimo. Quem achar o sentido desta joça, por favor, me avise. Quero pensar que seja algo a mais do que uma tentativa de diálogo (em estado alterado de consciência) com o Arnaldo Batista.
Vejam, eu não lembro nem de criar este poema, então acho que não preciso me desculpar por ele não ter final. Beijos na bunda de todos. E aguardem os próximos posts da série.
o cara mais chapéu de todos os tempos

ele queria navegar
no meio da corrente sanguínea
de todos os tempos
com todos os ventos
soprados da maresia

pra ser uma célula
ele tragou as sequelas
de seus amores
mortos no asfalto
de estrelas belas.

O cara mais chapéu de todos os tempos
É um japonês que trabalha no circo
Dando piruetas ao avesso

quinta-feira, agosto 20, 2009

Post negro

Muito tempo sem nada pra vos dizer, incautos seguidores (que não sei se existem ou quantos são). Mas não há nada a dizer no momento. Escrever se tornou como a moça pela qual um dia vivemos um imenso e tórrido romance, uma paixão bufônica. É triste, mas parece que a vida está prevalecendo sobre a fantasia - aquela que se cria dentro de si, o mundo "paralelo" que regem as palavras e que criam a literatura. Minha literatura parece estar morta. Não a enterrei ainda, é muito doloroso. Enquanto isso, o cadáver permanece aqui, cheirando cada vez pior. É que lá no fundo, bem no fundo, não consigo admitir (ou melhor, desistir) que tudo foi pro saco. Tudo que vivi nos últimos anos (e também pode se contar os anos mais antigos) pareceu tirar de mim a crença de que as palavras podem ser tão poderosas quanto à vida, a realidade. A arte continua sendo a minha igreja...mas eu não ouço mais a voz do messias dentro de mim. Por isso, àqueles que porventura me acompanham aqui (volto a dizer, não sei quem ou quantos são - parece-me ser um grupo muito reduzido), perdoem-me a falta de publicações. Não sei que caminho isso vai dar.
É difícil enfrentar a morte de uma crença. Todos os homens precisam de uma - viver sem é como assinar um documento para o desespero, para o vazio, para a falta de sentido, para o caos total, o desamparo. Devo lhes confessar, caros, comecei a escrever muito cedo, comecei a ler livros muito cedo, e tudo aquilo era mais do que minha vida, era a catarse, era beleza, era denúncia, era deixar-se levar por algo maior do que a própria razão, pela coração, por tudo que transpirasse verdade em meus poros. E foram muitos anos assim. A arte era tudo. Mas quando a inocência se perde de vez, integralmente, em todos os sentidos, é difícil criar algo. Quando se tem de pensar com sofreguidão no pão diário, quando tua mente não dá paz, quando vc assume as rédeas de uma vida em que a batalha diária, o atestado logo vem certo: a vida é maior do que arte.
Espero estar errado. Espero apenas estar num dia ruim. Pode ser que tudo isso não signifique nada e logo eu esteja de volta. Sinceramente espero. Como o padre que um dia perdeu a fé e a recupera num mágico momento de redenção, espero ver a luz e ouvir o doce canto de uma musa no meu ouvido, recitando maravilhas de um mundo própero, com esperança. Espero sinceramente alcançar de volta a grandiosidade de mergulhar em mundos que estão há muito escondidos dentro de mim. Tudo para dizer: sim, a vida é forte, mas a arte prevalecerá, de mãos unidas - uma ajudando a outra - nos dando esperanças. Um grande abraço a todos.

domingo, julho 05, 2009

Carta terceira

Obs.: Caros leitores, peço o obséquio de lerem esta e as últimas duas postagens para compreensão do que está acontecendo. Tive de postar as três cartas uma atrás da outra porque elas chegaram rapidamente e eu estava sem internet para postá-las.
Chegada
"Albert:
Bem, cheguei... Estou dentro do internato, onde fui muito bem recebido pelos meus parceiros de sorte... O inferno, até agora, não é assim tão ruim.
O Pastor me liberou os livros de poesia que o Bruno me emprestou, meus textos de poesia que trouxe pra cá, liberou que eu escrevesse e também que meus textos possam sair da Instituição. Isto é ótimo, meu amigo! As coisas estão, apesar de tudo, caminhando...
Obviamente tenho de cumprir os mandamentos de Jesus, dado como terapia obrigatória da casa. Cuidar de banheiro, cozinha, pátio, quartos e rezar, rezar, rezar, rezar, com três ou quatro altos por dia. Haja!!!
Pra você entender, estou preso com companheiros, na maioria adolescentes que para se reabilitarem, seguram no saco de Cristo: terapia dos pentelhos divinos! São loucos que se apaziguaram e precisam de lago para acreditar ou segurar.
Amigo, estou bem. Gostaria de estar tocando minhas coisas ai fora, em liberdade, escutando as músicas que quero. Tudo bem, já as decorei, estão dentro de um verdadeiro “bar dentro de mim”, onde não há credores ..para me importunar, nem os desgastes físicos, afetivos e emocionais, não há a “inteligência cluber” dos inúteis e caricatus “artistas curitibanos” pra me sacanear!
Neste bar, feito de papel, linhas, tintas e memórias (já que o tempo na instituição é parado), dialogarei com várias reflexões que versarei sobre cultura, pessoas, instituições, políticas e suas interseções. Histórias dos filhos-da-puta, dos traíras, dos oportunistas, dos babacas, mas também, histórias dos bons, dos melhores, dos exemplares. Albert, gostaria de lembrar que “não existem feitos, apenas versões”.

Para não enlouquecer aqui, falei os falsos e verdadeiros, do SIM e do NÃO, do MIM e do SÃO.
Então Albert, viva aos poetas de janela que nunca botaram o pé na vida; viva as mulheres de Curitiba impaludadas e angelicais que são devassas na cama, fazendo seus maridos secarem roupas entre os chifres; viva aquela mulher corneada que saqueia os bens do amante e o impede de ter acesso ao seu computador, instrumento de trabalho; viva a papuda! Viva aos meus amigos que são amigos de meus inimigos; viva aquela que se diz “empresária” e divulgadora da “cultura” e sua vagina; viva esta puta que rouba o dinheiro de seus otários; viva o amigo (da onça), que vive com seu papai e mamãe, é cagão, não sobe no palco, e ainda, descansa seu saco no sucesso dos outros; viva os artistas que morrerão de tétano por não terem cortado o cordão umbilical e fazerem Arte, a Arte “que não abre concessões as facilidades”.
Como diz o poeta: “Assim até eu!”, né Thadeu?
Albert: por favor, bate a máquina pra cuidar, para desespero dos meus inimigos ou quem quis me calar.
Obrigado por tudo, mande um abraço para nossos comparças ai fora, um beijo pro meu irmão, e um beijão pra mulher que amo!
Valeu!

beco
sem bandeira ou beijo
pela passeata do desejo
empunho as certezas
que descreio:
o país que não vejo,
o amor que não veio,
a palavra que não tenho.
na multidão, aflito
prorrogo o meu grito
e o ritmo das estrelas.
assisto,
meio esquisito,
ao fogo do meu signo
dentro do labirinto
sem fim e sem começo,
tudo aquilo que tento
é beco.
e que assim seja,
sair da vida cedo,
amanhecendo
com o coração aceso.
Jorge Barbosa Filho"
Só lembrando o site do Jorge: http://www.myspace.com/jorgedoiraj

Carta Segunda (de Jorge Barbosa Filho)

"Oi, Albert:
Parece inevitável minha internação. Não que eu não necessite. Preciso me curar e descansar um bocado do estresse que vinha sofrendo ultimamente. Descansar das pessoas, dos fatos, dos meus erros, dos erros dos outros que me jogaram nas costas, Descansar um pouco do farfalhar bovino da cena cultural de Curitiba. Descansar do amor, do venenos que causei nas mulheres, dos amigos da onça, das mesmas conversas, dos mesmos.... e dos ciúmes que minha obra, erros, acertos e postura causam Não gostaria de ir para uma Instituição evangelica, onde se reza pra cacete, a terapia é limpar pátio, banheiro e cozinha, futebol, censura de livros arte e música . Bem este é o erro a pagar pela minha ousadia, coragem, e não contentamento com está posto...Preciso me tratar e ao mesmo tempo tenho a sensação que todos querem me retirar de circulação ... do conv..vio social. " Sou um estorvo... um tumor"" .Bem não há mas nada a fazer... nesta minha jornada descobrirei quem realmente está ao meu lado... quem são os reais amigos .. que se pronunciará , com coragem que é meu inimigo... quem são os amigos dos meus inimigos.... e pricipalmente... quem é o inimigo dentro de mim.... Albert, para não enlouquecer.... escreverei para vc, como uma forma de terapia, fazendo minha catarse, depuração, e possivemnte, minha redenção.Conto com vc e com o Bruno... já que não confio mais em ninguém.Escreverei estes artigos com o título de "Lobo em pele de ovelha... cartas para Albert Nane " ou "Bar Dentro de Mim" sei lá.....Será uma mistura de ficção , reflexão, realidade, loucura mentiras, verdades... onde abordarei as pessoas, a cultural, a sociedade.... meus sentimentos.Tomarei cuidado para quando falar coisa que as pessoas querem esconder que acham que depõem contra elas .. e deixarei claro as pessoas que valorizo..Conto com vc e Bruno para esta jornada....Peço que deixe em sigilo o nome da instituição onde estou e não revele para ninguém que eu não autorize entrar em contato comigo...Eu te agradeço imensamente.No meu myspace existe várias fotos que vc poderá utilizar, divulgue os textos nos blogs combinados...Outras pessoas estarão cuidando de outra parte..Meus inimigos ficarão furiosos de saber que mesmo fora de circulação... eu ainda agitoToque fogo!!! e me ajude sair bem daqui,
Conto com vc...Obrigado... Jorge."

Lobo em pele de ovelha "Cartas para Albert Nane"


Depois de um longo tempo de ausência, um papo sério. Meu amigo Jorge encontra-se numa situação difícil, por isso decidi publicar suas cartas, escritas no seu local de internamento. Esta é a primeira, endereçada a Albert Nane.


"Oi, Albert:
Não quero me fazer de vítima ou coitadinho. Eu aprontei muito... Mas tenho certeza que contribuí muito, também, para o cenário cultural e poético de Curitiba, seja formando novos escritores, seja polemizando, na produção de eventos, recitais, divulgando idéias, e principalmente a atitude de minha produção poética. Vale dizer que minha poesia tem mais verdades que minha própria existência!
Mas todo mundo tem seu lado negro... o meu sobressaiu devido a falta constante de dinheiro, incompreensão pública, instabilidade afetiva, e por conseqüência, causando minha instabilidade emocional e concomitantemente, o alcoolismo, que anestesia minha ansiedade, minha depressão e meu tédio.
Mas vamos aos fatos.
No ano passado, eu estava trabalhando como PSS da Secretaria de Educação do Estado. Estava com minha vida normalizada, mas essa Instituição não me pagou por três meses consecutivos em uma das escolas em que eu dava aulas. Contraí dívidas que posteriormente poderia liquidá-las, com a seqüência das aulas. Mas neste ano o PSS só me chamou em Maio... Imagina o tamanho da dívida e da degradação em que fui caindo. Para acumular, problemas afetivos, a humilhação de pedir dinheiro e não poder pagar... Estava sempre tenso, ansioso, deprimido, envergonhado, sem esperança e sem perspectiva...
Mandei meu livro para a Secretaria de Cultura, para ser publicado. Na primeira instância o livro foi aprovado. Na segunda, negaram a publicação. Isso porque essa Instituição não achou conveniente editar um livro com “palavras de baixo calão”.
Nas grandes editoras do Rio e São Paulo, mesmo meu livro tendo prefácios de pessoas com respeitabilidade poética e mercadológica, eu teria de pagar a edição, como é sabido. Não tenho dinheiro nem para editar e nem para entrar com projetos na Lei Rouanet ou na FCC. Concursos de poemas no Brasil e no exterior, desisti.... Trabalhos com Oficinas Poéticas apareceram, mas não garantem minha sobrevivência.
Curriculum para jornais, revistas, escolas e cursinhos foram enviados, mas falta o “quem me indique”. Para fazer produção cultural, tenho de ter estrutura econômica e operacional... tentei várias vezes formar grupos para atuar nesta área, ou como um mutirão poético. Não funcionou.

Acho que ou existe algo errado em minha atitude, ou há medo, inveja, ciúme pela ousadia de minhas atitudes de vida e poesia.
Bem... sem dinheiro e sem perspectiva fui colocado para fora da casa da mulher com que morava e não amava. Meus móveis, textos, documentos e a maioria de minhas roupas foram despachados para um guarda-móveis em Piraquara. Inclusive meu computador, onde está o registro de todo o meu trabalho poético, musical, trabalhos em revista, contos crônicas, etc... Estava trabalhado com produções de evento em bares e restaurante daqui de Curitiba. Mas como trabalhar sem ter onde morar e o que comer?
Dormi vários dias na rua, roubaram-me os registros que fiz em estúdio em São Paulo, Curitiba, Shows, Recitais, até meu irmão se prontificar a me resgatar desta situação. Ele pode ria me abrigar, mas tem família, seus problemas e nunca concordou com minha opção de vida: a poesia. Somos ideologicamente avessos. Nosso convívio não daria certo.
Não tenho para onde ir...
Então a solução encontrada, quando eu estava em estado de choque, bêbado, traumatizado, foi me internar numa instituição de recuperação de alcoólatras. Topei, pois não tinha para quem mais recorrer. Meus amigos moram com pais e mães, ou têm suas vidas conjugais e familiares organizadas e não estariam dispostos a colocar um elemento estranho, muito estranho, dentro de suas casas.
Só me restou essa instituição... Topei e achei legal me tratar.
Me informei como era a rotina e as terapias desta Instituição: Acordar, rezar, lavar banheiro, cuidar do pátio e da cozinha, rezar a tarde, de noite. Perguntei ao pastor da instituição quais eram as atividades físicas, intelectuais, e se poderia levar livros, meus poemas, fazer música.
Bem, os livros e os meus textos só entrariam na Instituição depois de uma avaliação ideológica, religiosa de acordo com as crenças destes. A música só se tiver temática evangélica. Outro tipo de música, não! Perguntei se poderia escrever, eles disseram que só se o pastor liberasse o caderno e a caneta. E mais, que eu apenas teria duas horas por dia para ler e escrever. Ou seja: Censura e discriminação... e ainda, em seus discursos, pregam respeitar as diferenças. Hilário, não?
Sei que não é este o lugar para uma terapia.
Cara, se eu ficar muito tempo lá eu vou pirar ou morrer...
Por isso, estou te pedindo ajuda. Faça um movimento para me tirar de lá o mais breve possível. Fale com poetas, escritores e pessoas influentes. Preciso de um trabalho, casa para morar e comida. Mal ou bem , sou um patrimônio da literatura de Curitiba. Por favor, me ajude.
Obrigado!
Jorge".
Mais informações e sobre o trabalho genial de Jorge Barbosa Filho em:

terça-feira, novembro 25, 2008

Pollock

Onde você estava com a cabeça naquela noite em 56 quando você olhou a lua através daquelas lentes umedecidas da sua alma? Eu posso enxergar o brilho de seus olhos, o fugaz momento entre a paixão e o clique dos anunciadores de sensações ao nosso cérebro. O que quero dizer é que posso imaginar todo aquele impulso elétrico do ar passando para as devidas fases neurológicas de explicação do surgimento da paixão possuindo seu espírito! Que noite doente, Pollock, meu amigo...foi um porre e tanto.
Não posso deixar de imaginar você naquele carro sem uma trilha como “Good old funky music” dos The Meters, mas o anacronismo é tamanho e o perigo de o leitor achar que estou tirando uma, que estou com parcimônias de um sádico ou polemista são grandes.
O fato é, Pollock, descemos ao mesmo inferno, você é meu chapa. É tudo.

Porra, queria escrever como você pintava! Sem o dedo (no computador), sem o pincel...apenas com as gotas de tinta caindo no papel, trazendo a paz dos campeões...(como no café da manhã dos campeões, é claro) fluído amistoso,eu e o papel, intactos, pronto para uma cópula além do manifesto carnal, como duas águias se enroscando...
Arte, arte. Que bosta é a arte. Mas se não for ela, qual ela?
Mas chega de reflexões acerca de Pollock.

Meu quarto

Quem sou eu sem estas velas acesas? Sem “what more can i do”, do The Meters rolando na caixa de som...e pensar..flutuar por estes vapores ruminantes do amor, da enfim tranqüilidade.

Pensando bem, porra...o título disto daqui deveria se chamar “The Meters”.
Fazer o que, é a volúpia da arte.

FMAN – 16/07/08

Chapéu-s days

terça-feira, setembro 16, 2008

Está além do meu saco cheio

Está além de nós e tudo o mais
Está nas pernas dos inválidos
nas catedrais, nos vitrais, nos anais!
Está perdido e não quer ser encontrado
caminha de lado, com o cigarro de canto
tem gota, parestesia, síndrome do pânico
um pingo de berruga nas entranhas.
está para lá da freada brusca de um carro alucinado
Àa 5 e 45 da manhã
quem sabe na boca dos nativos
desta terra estranha e desolada.

E quando a música acaba
só resta estar na ante-sala do inferno
fazendo coro com os anjos e os santos
não duvido que alguém arranque “It´s a wonderful life’
de qualquer forma a gente se vai
é um salto pequeno prum abismo tão enorme (snif snif)
but fight against the life, brotha!

Não está mais lá.
não está nem em quem
mais está
pra lá de Bagdá (: ) )
(Não está mais na rima infantil, of course)

Gentlemen, está mais perto do que imaginávamos!
não tão caro como queriam os caminhões às 6 da manhã
encurtando nossa noite.
nem tão castrador quanto nossos espermas que contemos
com a fina foice dos enquantos.
(O fato é que há um certo “encanto” com rimas pobres)
Nos enquantos não sabemos o fim, tampouco lembramos o início.
Dura arte. Que a semente da vida transite´ntre um e outro tudo bem
mas uma hora temos de gozar, por Deus.
Então aquilo que “está” neste poema (como assim?)
que se foda.

sábado, setembro 13, 2008

Resgate dos mitos populares da infância ou a sabedoria do folclore do terror n.º 4

O Bicho-papão é um ser com forma em “oito”. Acima da curvatura anterior ficam seus longos caninos acompanhados da bocarra. Os olhos estão por ali também e, no fundo, olhando para aquele sorriso maligno e para aqueles olhos perversos, pode-se definí-lo como um pac-man degenerado. Ou uma versão corrompida de um smile. Ele avança ameaçadoramente para frente enquanto fala.
- O quê? A Cuca? A cuca não vem pegar mais...ehehehehe...não vem, não. Eu sei.
Ele tenta abocanhar a mão de uma das pessoas, mas não consegue.
- Alguém pode me dar água no copo? – aperta os olhos em súplica. – Ah, droga...mim, eu...não ter educanação. É, é educanação sim. Iaoiaoaiaoiaoaiaoail....hihiihi...prometo não mordê mais ninguém. Sua voz grave ecoa pelo salão.

sábado, agosto 16, 2008

Resgates dos mitos populares da infância ou a sabedoria do folcore do terror n.º 3

O mão preta se recosta no sofá, estrala os dedos rapidamente e com modos sombrios nos comunica por meio de L.I.B.R.A.S:
A geração 90 é a última que vai poder dizer uma coisa do tipo “nos meus tempos de infância eu brincava nas ruas, ficava sentado na calçada, em frente ao prédio às 3 h da manhã”. O caos e o terror paranóico são coisas do começo do século XXI. Lógico, houveram manifestações curiosas do fenômeno há mais tempo, mas tais o eram apenas como precursores. Naquela época, você conversava na calçada com seus amigos imberbes, simplesmente curtindo os ruídos da madrugada, sentindo aquele mistério ainda não desvendado da noite. Hoje, o mesmo prédio está com cercas e interfones, e se você sentar encostado no portão ou na calçada, vão pensar que você é um traveco ou garoto de programa (se homem) ou puta (se mulher). Existirão seguranças emburrados fazendo ronda de dois em dois pelas ruas ao redor por causa daquele hospital que tem na frente do prédio, mais antigo do que você próprio. É terrível pensar no crescimento das cidades e que estes são OS tempos novos. É um mundo pervertido, insano. O mão preta estica o pai-de-todos e o fura-bolo na beira da janela, com o cata-piolhos, o mindinho e seu vizinho apoiados no sofá. Está pensativo. Um grande silêncio se impõe.

quarta-feira, julho 30, 2008

Da Série "Resgate dos mitos populares infantis - ou a sabedoria do folclore do terror n.º 2

A véia Coró se espreguiça na janela, coça um saco imaginário, cospe no chão. Dá uma olhada lá pra fora, arrebitando os beiços carcomidos e a boca sem dentes, e depois de um momento pensativa diz:
Aquela velha sabedoria de que “Boa vida tem o ator pornô” pra mim ta ultrapassada. Um ator pornô já conquistou a realização total da felicidade, já chegou no ponto, não tem graça. Porque não existe expectativa. A felicidade real é ser um cara qualquer que cuida da técnica, que tá sempre por perto, um contra-regras ou iluminador, por exemplo. Sentindo o dia inteiro cheiro de buceta e imaginando com aquela intoxicação maravilhosa toda sonhos de candura e golfinhos pulando da água. É, a felicidade é isto. A eterna possibilidade de imaginar.

Da Série "Resgate dos mitos populares infantis - ou a sabedoria do folclore do terror n.º 1

Mr. Crowley na caixa. Vento brando na Curitiba silenciosa e vasta.
(Qualquer um que está no quarto faz um comentário como “Este caso é sinistro ou aquele caso é sinistro...”)
O velho do saco apenas dá uma pitada de seu cachimbo, pisca um olho como um cantor que arranha a voz antes de começar a cantar e diz:
Sinistro seria fumar uma bomba, daquelas de deixar você perturbado, e sair na Iguaçu de madrugada para pegar um traveco e ainda por cima, estar sem grana pra pagar. Esta seria uma bad trip total. Posso imaginar toda aquela energia vibrante e um tanto paranóica da cannabis urrando na sua cabeça e você pensando: “Puta merda, tou aqui neste quarto com este traveco, e não tenho grana. O cara vai sacar a arma logo logo (sem duplo sentidos).” Isto seria uma trágica noite curitibana.

segunda-feira, julho 21, 2008

Breve anotação da madrugada (ou noturno n.º 2)

Eu só vejo loucura por onde passo. É uma patologia de meus olhos, entendem, uma vez que ele é o filtro desse simulacro de realidade chamada vida. Olharmo-nos em espelhos retorcidos, figuras angustiantes produto de suas próprias mentalidades capciosas ou então fogosas, quem sabe? Eu me lembro de Atlantis, ou não, talvez seja Atlântida, diabos, aquela cidade perdida na história e no tempo, a civilização incrível, a destruidora cultural avançada deusa dos verdadeiros homens.
Através de um filtro razoável é possível dialogar com grandes criaturas do passado. Manter aquele, hum, papo amigável (piscada), sem pretensões. Sócrates, por exemplo. Por meio de uma música como “Rear View Mirror” eu consigo cantar o filósofo-mor a cuspir suas realidades possíveis. Com um drible de lábios mafiosos é que é possível encantar o mundo, um meio de solavancar as estruturas sólidas, chacoalhar a cabeça dos que estão enfurnados em máquinas como aquelas de fazer permanente. "No final das contas, teu tempo é um tempo estranho. É um verdadeiro salão de belezas cheio daquelas peruas ostentadoras enfurnadas dentro de máquinas de fazer permanente." O tempo permanente é uma ilusão, caro Sócrates. Necessitamos de uma boa dose da senhora História para cogitarmos uma possibilidade de entendimento de nosso universo próprio. O tempo é intangível, na medida de que ele não aflui sozinho, mas precisa de sopro de vento que lhe empurre. Não importa a direção, mesmo quando damos uma direção certa ao nosso fôlego, há possibilidades de desvio. "Você tenta disfarçar o imenso embaraço que tem pela tua época." Eu estou na época certa, aquela em que precisamente nasci. A época em que nascemos será sempre a perfeita para nós, pelo simples fato de que FOI NELA em que nascemos, entende???
Enfada-me a conversa com Sócrates. Deixo ele para me permitir um prazer mais sincero: um Marlboro e uma cerveja. Talvez seja isso meu tempo, um bocejo seguido de cigarros e cervejas. Enquanto uma vela se apaga lentamente às 05:46 da manhã de segunda feira (bad trips quando lembro disso) eu fico aqui tentando obcecadamente definir meu Tempo. Me embaralho com referências pop, suores ansiosos, pílulas para dormir, um grande contentamento pela uniformização pela passividade, pretensões publicitárias de ativistas pré-históricos, e por aí vai. O fato é que, definitivamente, tento colocar na cabeça que não tenho tempo para este blá, blá, blá todo.
Quem sabe eu não veja só loucura. Existem momentos bons, agradáveis. Atlântida está bem aqui, muito provavelmente nalguma música. Os olhos podem ter filtros, mas os ouvidos não. No fundo, é desta maneira que deve funcionar aqui na nossa economia: arranca-se um braço para poder utilizar outro.
Hora de terminar.

domingo, julho 20, 2008

As tetas e o câncer de mama do meu tempo

“preciosos nódulos de seios
prazer de um degelo
tumba de qualquer desejo”

(em que o autor descobre a patologia de nosso tempo)

escorrendo por esta noite mórbida de céus atômicos, um tanto dóceis, delicados talvez? quem sabe, nesta noite em que temos apenas a presença da rainha branca formigando lá no céu, anões de jardim nas salas de estar dos vizinhos, o amor rebentando, chepas esgotando-se e a preciosa veia artística dos sedutores aflorando em paisagens nuas sem sentido, o ignóbil fruto sedutor dos artistas emergindo de pátios de recreação, com um parquinho bem sotisficado, tem de-se aquelas casinhas toda trabalhadas, com mil e um brinquedos, como o escorregador, a balança feita de pneu, umas argolas esquisitas e toda parafernália. Eis o tempo que se foi, o meu tempo, quando não existiam destas coisas. Mas meu tempo não importa, não é o tempo de ninguém, não pertence aos nodosos bêbados das noites excitantes como um quadro hiper-moderno numa pretensa exposição de arte moderna de uma bienal instigante e grandiloquente (as obras de arte falam, não ficam mudas, é bom ressaltar isto), nem aos insetos intelectuais tsc tscando em torno de nossas orelhas em todos estes lugares meio cool que insistimos de visitar por pensar em qualquer coisa profunda em nós, alheia a toda e vã filosofia, enfim, por merda nenhuma! , não pertence obstante aos decentes homens de terno caminhando austeros e bem resolvidos. Meu tempo não pertence a ninguém! Meu tempo está dissoluto, entranhado em meus dentes para ser mastigado, até eu decidir cuspir esta porcalhada pelos banheiros infestados de vômitos de uma bodega qualquer pelos arredores da city. Não há meu tempo, porque eu ainda não o criei, that´s all.

“flácidos seios
porque a idade veio?
para trazer solidão ao desejo”

(A conclusão de FMAN é atacada pela consciência negra de seu envolvimento com a patologia e documenta a descoberta como “Análises egocêntricas”)

estamos na era das tetas caídas. Pudera, chuparam todas. Eu mesmo dei umas bicadas em algumas por aí, é claro, orgulho inclusive (como na chamada popular) mamar nas tetas do governo por um bom tempo. Há que se mamar também em tetas beatíficas, para termos certa dose de paz espiritual. Para os prazeres da carne,as tetas das ninfas que habitam nosso ecossistema.
Entretanto esta é a era das tetas caídas e eu faço parte dela.

Não há morte mais singela para o artista.

quarta-feira, junho 18, 2008

Revolução: indo do nada para o nada

Estou completamente horrorizado. Estupefato. Indignado. Não me demorarei, sou um leigo em história, um completo alienado, um destes alunos que passou pelos grandes acontecimentos históricos como um aluno medíocre classe média repetindo e decorando os nomes e datas para num futuro passar no vestibular. Merda. Também não quero ser panfletário. Vou ao que interessa: Li um livro genial e assustador: Doutor Jivago, que narra os acontecimentos da Revolução Russa. E pra ser direto, digo que as Revoluções, como me ensinaram (elas próprias, digo) até hoje, levaram de nada para nada. Tudo um jogo de poder, cujo processo de instauração serve como desculpa para todo tipo de atrocidade e violência em nome de "algo maior". Revivo aquilo que Raskolnikóv já proclamava no nível individual. Oh, merda, cada vez mais pessimista. A raça humana é uma merda. E não se iludam, eu também me incluo na privada.

terça-feira, maio 06, 2008

Trapalium ( I ) - Parte final

Ora, não me parece crível que a passividade conste no rol de defeitos de E. Em verdade, era homem de temperamento explosivo; um tipo que, se pego num engarrafamento e deixasse um carro que vem de uma rua transversal passar a sua frente e, por safadeza, um outro carro logo atrás do beneficiado se aprouvesse da oportunidade para também passar a frente, iria sair do carro espumando, chegaria até a janela do gatuno e espancaria o vidro com veemência e os olhos em fúria, um demônio descontrolado e indignado. Um tipo que, certamente influenciado pela carga estressante de seu trabalho aliado ao perfeccionismo obsessivo, se atrapalhado pelo filho mais velho, iria descarregar o peso de sua sandália de couro no lombo do pequeno infeliz por mera impulsividade. Mas não nos precipitemos a nos pasmar com traços tão contraditórios; E. era de fato homem de ética e dedicação honráveis, e se ponderarmos um pouco que seja nas incontáveis fábulas erguidas sob a égide da pretensão de se construir uma moral humana, tão recorrente em nossos meios de educação vigentes, veremos que o impulso da agressividade não convive diretamente com os ditos valores da virtude. É a velha dicotomia do bem e do mal, não me cabe discorrer sobre tema tão longínquo. Basta deixar claro que fábulas são fábulas, e o que ocorre em nossos meios, aqui no mundo de baixo dos seres que se acotovelam, é a convivência harmônica (em certo sentido específico) de diversos e diferentes valores. Digo que é muito provável, se nos esforçarmos um pouco, imaginar um homem severo com suas obrigações morais, éticas e profissionais ser também dono de uma geniosidade perturbadora e irrequieta, propensa a desequilíbrios de vez em quando. Tinha ele gênio forte, sem dúvida, e se voltarmos a pensar em suas obsessões e dedicações, creio ser bastante coerente a figura total que compõe suas multiplicidades e variações. Do mesmo feitio, sua paixão pela arte e pela liberdade, expressas em tamanho amor pela vida e pelas aventuras tornam-se mais palpáveis.
Existe uma anedota narrada nas memórias que acho bastante emblemática e um tanto reveladora sobre os dotes amotinadores, escondidos sob a camada suave da ironia. E., quando duma abordagem em pleno centro da cidade solicitado para uma entrevista em que deveria dizer o que achava do atual governo, respondera com impropérios e expressões das mais criativas. A reportagem nunca foi ao ar, e E. gabava-se ao contar a sua família o ocorrido: encontrava ele nesta pequena insurreição motivo de garbosa jocosidade, e pelos modos como expressa o acontecimento no texto, posso adivinhar sua alma se gabando de tanta espiritualidade. Por outro lado, nada há de espirituoso nos reais significados de seu ato, no que há de mais profundo dentro das causas de suas bravatas perante às instituições políticas; aqui só permanece o perigoso sentimento da insatisfação e da marginalidade.
É neste ponto que chegamos ao acontecimento mais importante de minha narrativa, e do qual já mencionei que nada tenho a acrescentar para decifra-lo. O fato é que, a partir de certo momento, E. começou a agir de forma estranha. Nunca foi entregue a casos extra-conjugais ou não era o que se comumente designam por um “galanteador”, mas fato era que a relação com sua esposa tornava-se dia e dia mais distante. Sua atenções eram motivo de enigmas e proposições. Não se dedicava ele às tarefas conjugais, tampouco às domésticas. No trabalho, sua postura alternou-se de forma brutal: aparecia em bermudas jeans, ostentando um velho colete preto sobre o torso; cresciam o número de tatuagens na pele. Não houve, porém, queda em seu rendimento. A modificação ocorria a nível mais sutil, em degrau que despontava para os andares contíguos mas ao mesmo tempo distantes dos mais informais; transcorriam no plano comportamental, e este tipo de concatenação de sevícias (para o escalão corporativista) era simplesmente intolerável. Entretanto, devido a enorme popularidade de E., nada era feito. Ninguém tinha coragem de se meter no caminho do “homem com o gavião na mão.” Esta situação permaneceu por meses a fio; sua esposa, ao demandar explicações ou, daquele modo peculiar das mulheres, querer descobrir nas entrelinhas o segredo que lhes desespere os sentidos (quando na verdade, o que esperam é que mais e mais desespero lhe advenham, conquanto menos sentido tenham), recebia apenas remissas vazias e inconclusivas. O Mr. Michaelis nada dizia. Contentava-lhe apenas que sua cadeira de couro ainda possuísse a graciosa forma de suas ancas e o bolso o tamanho apropriado para o dinheiro que vinha diretamente de sua conta todo final de mês.5
E então sucedeu-se o misterioso ato final da peça que E. vinha orquestrando sabe Deus desde quando. Num dia friorento de julho, E. simplesmente desapareceu de vez de nossa província, sem deixar qualquer rastro. A família acordara sem a presença do progenitor e guardião. Não estava ele na cama, não estava no banheiro fazendo a barba impecavelmente, nem no corredor passando seu terno ou vestindo-se com o alinho habitual. Não havia tampouco suas roupas. Tudo fora levado. Ninguém percebera sua fuga. E desde então, nada ficou sabido de E., nem sobre seu paradeiro, nem de suas posteriores aventuras por esta terra estranha e imensurável. Nada até hoje, quando seguro em minhas mãos as memórias. E mesmo com este sinal de que, sem dúvidas, em algum lugar o homem ainda passeia com suas tatuagens e o charme de seu mistério estampado em seu rosto, nada se revela de sua atual situação ou de suas motivações. É aqui que acabam, do mesmo jeito que começaram, suas parcas revelações, que mostram-se mais de cunho meditativo ou psicológico que efetivas.
Não obstante, devo acrescentar, talvez para espanto de meus leitores, quem sentiu mais a falta de E. Se os fatos fossem outros, seria a última pessoa que poderíamos esperar - o nosso ilustre Mr. Michaelis. Pois a fuga de E. não se deu de forma simples e desprovida assim de graça; o fato em si, esta fuga repentina, o homem que some da noite para o dia abandonando sua família não constitui motivo de tanto falatório; esta espécie de labor deixemos às donas de casa e às fofoqueiras beatas de nossa santíssima igreja; a verdadeira polêmica ficou pelo grand finale profissional de E., o qual se revela tão inesperado que gera as mais prodigiosas reações naqueles velhos círculos que já comentei. Pois E., durante nove meses, pôs-se a dedicar sua competência no mais árduo e difícil dos trabalhos: a gatunagem, e de forma que não me proponho entrar em detalhes aqui, desviou de seu principal cliente, o banco, uma quantia com zeros suficientes para fazer inveja a qualquer homem com o nome destacado nestas revistas de economia. O dinheiro nunca foi rastreado. E podemos adivinhar em que maus lençóis ficou o renomado Mr. Michaelis.
Em não muito diferente situação ficou a esposa e os filhos. Foram anos na justiça para que se despertasse a piedade de um juiz em condescender a não-obrigatoriedade do pagamento das dívidas a uma mulher casada com comunhão de bens.
Assim, registro o final desta fantástica narrativa: obrigo-me a revelar que não descobri o verdadeiro destinatário do envelope que me chegou em mãos, o que seria de muito bom grado para saciar os anseios de minha imaginação. Digo desde já que esforcei-me por encontrar a revelação de tal mistério, mas mesmo os funcionários do serviço postal não souberam me dizer; a papelada toda foi parar em minha residência à causa de confusões burocráticas e erros dos mais baixos escalões administrativos. O mensageiro por parte do remetente havia dado um endereço, o mensageiro por parte do serviço postal ouvira outro, e nisto, acrescido da desinformação da pessoa a quem se destinava o pacote e à fraca memória do funcionário, residia toda o imbróglio. Acredito, no fundo de minhas faculdades mais caras, que o pacote venho a pessoa certa; que de certa forma, venho como uma mensagem, e a maneira como chegou não deixou nada a dever ao jeito como tudo começou – envolto em mistério e cheio daquele sentimento nativo dos românticos, o velho sabor da despedida que nunca diz adeus.
(...)
5Atenta-se para o que parece ser mais um julgamento pessoal do autor.

segunda-feira, abril 14, 2008

Trapalium - (I) - 3.ª parte

Outrossim, sua regular carreira acadêmica não provocou a atenção de qualquer pessoa, incluindo seus próprios genitores, de maneira a lhe prejudicar ou fomentar questionamentos a respeito do alcance de suas faculdades mentais. Era esforçado num certo sentido, e isto bastava para qualquer um; o brilhantismo de seu comportamento acobertava qualquer possível falha nos ramos periféricos de sua vida. No máximo era possível dizer que o excesso de suas qualidades lhe permitia uma espécie de desleixo para com os estudos, asserção que pessoalmente (rigorosamente calcado nos dados), desconsidero de crédito, uma vez que a personalidade perfeccionista e sóbria de E. não lhe permitiria tamanho descuido com suas cobranças interiores. Acredito, e ressalto a importância deste juízo, que o desvio neste caso tratava-se de mera distração, pois que a mente do curioso homem vivia mergulhada em devaneios obscuros até para si próprio, e neste ponto posso enxergar seu filho fitando-o com curiosidade, tentando desvendar debaixo daquele olhar declinado alguma coisa de palpável, em que pudesse firmar os pés e dar os passos que tanto medo lhe provocavam.2
Sua entrada no mundo do Direito não constituiu surpresa para nenhum de seus familiares, isto é, pelo sentido de ninguém conjeturar qualquer profissão que emoldurasse sua personalidade e suas capacitações. Porém, o fato em si não foi destituído de propriedade singular, pois foi a força do acaso que agiu com suas mãos discretas e por vezes sombria. E. julgava ter assinalado na ficha de inscrição a admissão para o curso de Engenharia Mecânica, mas qual não foi seu espanto ao descobrir que havia sido incluído no quadro discente de Direito! Conhecemos bem estes códigos singulares que regem a vida moderna; o hors concours “x” que devemos marcar em categorias como “sexo”, “estado civil” e outros estigmas valiosos para o bem-estar social, o ancião “1/0” dos códigos binários, os “T40” ou “T52” para designar a profissão pretendida num concurso público ou os algarismos de três ou quatro dígitos para a folha de inscrição numa universidade e para as valiosas senhas bancárias. Apesar de lidar bem com códigos, signos e números, E., pela constante distração característica, deve ter soçobrado alguns dos números. Insisto na idéia de que esta talvez tenha sido a primeira demonstração de que havia algo de revolucionário e contestador em seu espírito, algo latente, esta resistência sociológica contra os padrões institucionais típica dos desajustados. É uma idéia que os homens adeptos da parlapatice tão comuns ao circo fofoqueiro ao redor de E. tratariam como “indecorosa” ou “presunçosa” e “inimaginável”. Julgar-me-iam eles homem de baixas percepções, cavalheiro com “o fino trato das bolas3 prejudicado” ou mesmo “sofredor do mal dos trópicos”. Mas que sabem estes homens? Parasitas! Rodopiavam céleres ao redor de um boato como moscas famintas e se apegavam ao mistério com tanto ardor que seriam bons tipos para uma encenação moderna da lenda de Ícaro – o céu seria a bisbilhotagem da vida dos outros e a queda, ah, esta cairia bem (com o perdão do trocadilho) para as suas infames conclusões precipitadas e pretensiosas a respeito dos fatos concretos que nunca viram.
E. era homem de espírito decididamente libertário e rebelde, disto não há dúvida – há documentos, e estes são os de agora, de minha posse – que revelam as mais judiciosas provas de minha afirmação. Em minhas mãos seguro uma cópia da carta endereçada ao sócio de E., o austero Mr4. Michaelis, da qual o contexto é o desaparecimento de nosso protagonista, se é que posso lhe chamar assim, de nosso mundo limitado. Diz ela, categoricamente:
“Você só enrola! Desde que entrei nesta empresa, trabalho dia e noite para manter em dia todos nossos processos e relatórios! E com os dividendos de nossos lucros (do qual mantenho a irrisória quantia de 25%), o sujeito de mais irregular raciocínio mental inferiria que a parte que me cabe de trabalho neste escritório é muito superior ao que de fato me caberia! Tenho uma família, tenho minhas prioridades, sou amante da vida e não posso viver única e exclusivamente para o trabalho! Prezo pela liberdade, é uma das características latentes mais poderosas do ser humano e prezo igualmente pelo mundo das artes! Sem arte não vivo e tudo isso me é privado pelo simples fato de que a carga de trabalho neste escritório extrapola os níveis mais justos concebidos pela sanidade corporativa. Coisas básicas, como canetas faltando! E o simples ato de conferir os atos processuais marcados, trabalho designado para um estagiário, até estes tenho de me responsabilizar, enquanto você fica aí sentado em cima de sua poltrona recheada de couro, que provavelmente abriga sua bunda gorda de forma satisfatória. Este escritório, sem sombras de dúvida, foi erguido e mantido por minhas mãos, pelo esforço contido em minhas inúmeras horas extras que passei cuidando dos mínimos detalhes para que pudéssemos dar conta dos prazos e das próprias contas! E mais uma vez, o que fazia você neste tempo todo? Evasivas e dissimulações, tomando cafezinho com parceiros de caráter duvidoso...e a maior parte dos lucros, reitero, caindo em suas mãos como uma tempestade de dinheiro. E quando lhe cobro as pequenas coisas, educadamente, para que possamos ter um melhor desempenho e para que eu possa acalmar a demanda crescentemente irritadiça de nossos clientes, você me vem com estas cretinices (não se sabe a que se refere E. neste ponto. [N. do A.])! Estou cheio! Em suma, como já disse, você só enrola!”
(...)
2 Este é um trecho obscuro da narrativa. O autor procede a um juízo que diz respeito ao filho de E., porém não possui ele nenhuma informação que extrapole a personalidade do próprio E. Deixo aqui as palavras da teoria de D.H. Lawrence a respeito do tema, a qual sustenta que “há um envolvimento maior entre o autor e a própria família de E., e que a intenção do mesmo é ocultar esta relação por motivos óbvios.” 2.1
2.1 E quanto ao fato do autor fazer julgamentos claramente pessoais de embasamento nulos a respeito do próprio E.?? E quais seriam os tais motivos óbvios?
3 É preciso que fique claro que à época de escrita deste texto, era bastante comum o uso da expressão “dar trato às bolas”, com a respectiva última palavra referindo-se a cabeça, e não a outro membro tão contemplado por gírias nos dias atuais.
4 Há aqui uma incoerência que pode perturbar olhos mais sensíveis. O fato é que o autor, de índole bastante excêntrica, permitiu a tradução de suas obras do francês apenas se fosse respeitada a condição de se manter o “Mr” de Monsieur, ao invés do óbvio “Sr” do português. Segundo ele, seria uma boa forma de “manter viva, mesmo através de uma pequena chama, a supremacia e a graça do idioma soberbo que é a querida língua dos francos.” É de conhecimento comum o rigor dos franceses com sua língua-mãe. (N. do E).