(Fman - M.L. Fumaneri)
Você me condena por falar da vida alheia
diz que é pecado que é coisa muito feia
mas não vê que na vida o perigo,
o tédio, é olhar o próprio umbigo
nada é mais humano
que a picuinha minha com a picuinha tua
olhando a vizinha errando pela rua
e quando nos erros meus
a vizinhança me crucificar
vai ser bonito de ver
a cara da vizinha
quando me deixares voltar
você me condena por falar da vida alheia
diz que é pecado que é coisa muito feia
mas que graça tem a realidade
se ninguém comenta nossa intimidade
não é por vaidade
não somos melhores que ninguém
é que minha felicidade
é abrilhantar o fracasso de alguém
cada macaco no seu galho é muito solitário
mas no dia de carnaval eu deixo de lado
não vou rir da desgraça de outrem
que é pra eu e a vizinha ficarmos de bem
domingo, janeiro 21, 2007
terça-feira, janeiro 16, 2007
Conto:
Despejo
para Maria
Despejo as cartas na mesa e espero afoita, de certa forma desatenta a tudo o mais em volta, como uma bela confusão; são ás de paus, dama de copas, reis e valetes, todos poderosos e imponentes em seus trajes majestosos, ditando meu futuro incerto que não me interesso verdadeiramente em transcrever. Despejo as pílulas do tubo ali em cima, e aí fica um mosaico estranho e colorido, as cores são bonitas a mim – sou design gráfica, ou era, como algum pedaço de papel quis imprimir em minha personalidade a algum tempo atrás, fruto de algum esforço despendido com certa alegria durante alguns anos sentada com a caneta pendurada nos lábios e os olhos atentos àquela nuca vincada que logo a frente parecia rude e ao mesmo tempo lírica aos meus sentidos estéticos mais apurados. Escrevo então nomes com as pílulas, juntando a extremidade de uma com a extremidade de outra, uma tarefa divertida que faz o tempo correr enquanto dentro de mim não corre mais nada, talvez apenas um sangue quente e endurecido.
Escrevo com pílulas os primeiros anos alegres sob a tutela de sonhos ideológicos e românticos, em que a aproximação de um beijo me faria sentir um pavor histérico de moça recatada, como se os lábios alheios violassem uma lei impenetrável, cujo castigo seria imponentemente a pena de morte. Não, estes lábios curvados em reverência são mais do que duas mucosas apertadas, são dois grilhões do universo, são uma sentença não julgada, um apertar e afrouxar do coração que bombeia freneticamente. Meus lábios fazem reverência quando abertos, mas os juízes são severos: meus lábios procuram o pecado, mas vivem em santidade plena, inviolável.
A penteadeira ao meu lado com seu espelho mágico some. Despejo então meus pentes sobre as cartas, sobre pílulas e lembro ternamente que um dia na praia eu havia pensado que nenhum pente no mundo arrumaria meus cabelos bagunçados por aquele vento infernal enquanto no processo de desmoronamento do mundo eu esquecia espantosamente aquela nuca vincada – mas não os olhos tristes, contudo os olhos tristes deixariam de me percorrer o corpo como um mistério em que eu fosse a maior e mais destemida dos detetives de almas; não, antes aqueles olhos apenas me transmitiam uma melancolia que não me pertencia mais – e olhava o sol e o mar rebentarem nos meus olhos e ouvidos com toda a força que poderia imaginar existir dentro de mim.
É um sorriso que está dentro agora, o armário desaparece sem deixar vestígios a não ser pegadas sujas de lama no assoalho. As roupas já não me servem, deixaram de me servir há muito tempo atrás, quando um pedaço de pano sobre o corpo era uma prisão atordoante, quando tudo o mais que eu queria sentir era a coroação suprema de um amor que eu enxergava como a mais implacável de todas as prisões. As roupas, então, eram a prisão dentro da prisão e Ricardo me deixava dentro de ambas, este Ricardo severo, maluco, que fitava o vazio enquanto eu via em seu olhar que não tinha nada de triste mas sim de pavoroso, o pavor que todos meus sentidos queriam acolher. Ricardo venho a mim como o despejo de um outro amor que deixei balançar ao vento na praia. Mas Ricardo ao mesmo tempo me privava de meu maior sentido, o sentido de estabelecer um limite para o amor que eu via crescer dentro de mim sendo uma bomba com tempo limitado: tudo iria explodir à minha volta, mas eu não queria a explosão fora de mim, ah, não, esta explosão só poderia vir de dentro e justamente aí ele me aprisionava, recusava-se inexplicavelmente a tornar em pecado mais do que meus lábios, mas todo meu ser, embora o pecado em que eu estivesse a procurar fosse na verdade aquela coroação suprema da maior santidade que havia em meus sonhos, seria o pecado que me levaria à libertação integral de tudo que me possuía. É de se compreender, quando olho por um momento em volta, antes que o armário se vá definitivamente, que eu mude de idéia – ainda sem prestar atenção a tudo em volta – e pegue todas as roupas da gaveta e as despeje sobre meus mosaicos tão valiosos agora aos olhos como ao sentidos.
Ricardo não veria nos meus sentidos nada mais que alguma arma que eu lhe atirasse furiosamente; eu via em seus rompantes oriundos da mesma origem que a minha, apenas flechas que não eram propriamente armas, mas sim alimento para minha paixão. Existia assim uma necessidade de eu me ver completa, de sentir que meu sentir lhe era repelido com tanto enigma e contradição que me deixava ás beiras da loucura, mas a esta loucura, me vinha de encontro as respostas que sempre buscava, um ciclo hediondo em que cada vez mais eu descobria fundo de mim a mulher furiosa e descontrolada se perdendo em algo que pouco a pouco ia se privando de todas as justificativas possíveis de se acatar. O algo que eu já não sabia mais o que era, apenas mergulhava dentro de, buscando vez ou outra a superfície para ter um pouco que seja de ar dentro dos pulmões. Inevitavelmente, um dia, eu iria mergulhar tão fundo encantada com a luz do sol refletida nos corais lá embaixo, que iria afundar de vez na escuridão do mar, sem conseguir ter forças para chegar lá em cima para respirar novamente. Ricardo sabia disso. Sabia mais do que ninguém. E um dia ele chega a meus ouvidos e a meus olhos inchados e diz: “eu tentei...eu tentei te amar.”
É a vez do criado-mudo. Tudo que tentei amar poderia estar dentro dum criado-mudo, um belo dum criado mudo alto e assustador, vestido com roupas de um mordomo, que visse terríveis segredos se desenrolarem dentro da casa de seu patrão, mas nada poderia dizer porque sua impossibilidade estava destinada a ser seu fardo. Muitos me amaram. A estes, eu tentei amar. Tentei amar novamente sempre como o despejo de um novo amor. Sendo assim, pego as cartas embrulhadas e as despejo sobre a mesa, e agora o quadro que me aparece não é algo bonito tampouco provido de ordem, e sim um amontoado de coisas e mais coisas que me deixam de enxergar qualquer objeto real no meio daquilo tudo. Existem cartas de amor, cartas de amigo e enquanto passeio as mãos – e olhos rapidamente – sinto um fugaz arrepio no meu estômago e descubro mais uma vez que existe por trás de todas estas trilhas percorridas o algo maior que me preenche e se torna o objetivo maior de minha vida. Por ela, eu despejaria o tudo o mais. Mais uma vez, enxergo então por baixo daquela confusão de objetos, as pílulas. Vejo Ricardo dentro delas. Vejo a destruição de sua ausência. Vejo, entretanto, a morte que ele fez justamente neste objetivo maior que me faz inteira por dentro. Eu sequei, fiz-me podre e infértil, um saco vazio sem qualquer sustentação. Não me senti mulher por todo este tempo, sequer fui mulher durante todos estes anos. Não queria nada mais que os segredos do pecado estampados num lençol, coroando, como já disse, os limites da paixão que me faz flutuar na santidade.
Está quase tudo vazio. A penúltima delas, é tomada de assalto e se vai com certa dificuldade. Eu sei. A cama pesa duas toneladas. Não seria fácil a ela sumir assim tão rapidamente. Nela foi finalmente feita a vontade do profano, e mil anjos tocaram trombetas em cima. Uma chuva fina caiu sobre nossas cabeças e pudemos nos sentir purificados de todos nossos desencontros. Despejo o lençol sobre a mesa e cubro todos os objetos que estavam nela. Amarro tudo e coloco sobre meus ombros. Em pé, posso então sorrir com o peso da cama sumindo.
Ele me veio despejado por suas próprias angústias, por um mundo que não lhe supriu de forma alguma o seu grande saco vazio – a semelhança do meu – e lhe deixou tão destruído e corrompido quanto um santo poderia ficar. Ele, por sua vez, os seus lábios, procuravam a santidade, mas viviam no eterno pecado. A ele, a busca era a santidade no inferno. Quando ele veio a mim, foi despejado então como Lúcifer o fora do paraíso. Mas ele veio tão casado com minhas próprias religiosidades do corpo, que o fruto de toda esta destruição que nos atingia só poderia gerar um casamento perfeito entre os justos e os ímpios, e desta forma se rompeu sobre minha cama a explosão de um encontro que salvou tanto minha alma do pecado, quanto a dele, da santidade. Nada mais que um duelo de titãs. Nada mais poderia pesar tanto sobre uma cama como esta união perfeita de tanta destruição gerada pela criação. Suspiro aliviada: a cama já se foi.
É chegada a hora, penso. Existe tranqüilidade. Ela está presente em mim há algum tempo. Não é tranqüilidade dos monges, mas antes uma serenidade que me permite estar de acordo com aquilo que me move e me faz ser tanto eu quanto poderia. Não acho nada estranho esta serenidade advir de uma micro mutilação dentro do meu corpo. Esta serenidade me deixa inquieta todos os dias, e assim posso me sentir viva, pois sinto que aquilo que esteve sempre comigo como uma ordem do que deveria fazer de minha vida algo valioso, isto está vivo e arde com força. Eu amo. O Amor, desta vez, não foi um despejo meu, mas venho até mim assim. Um ciclo que agora se mostra com todo sentido. Ele criou o sentido. A mesa, finalmente, levanta-se e vai indo embora rapidamente. Antes que ela suma, pego de cima dela a ordem de despejo, coloco o lençol com os pertences dentro de uma mala, fecho-a e me encaminho para a porta da frente.
Lá fora, está esperando aqueles olhos tristes com sua nuca vincada. Lhe dou as mãos e caminhamos na direção do final da rua, onde o sol se põe belamente. Lhe olho de solaio e vejo seus olhos, mas seus olhos não são mais tristes: o mistério que antes eu insistia em procurar, já estava desvendado.
para Maria
Despejo as cartas na mesa e espero afoita, de certa forma desatenta a tudo o mais em volta, como uma bela confusão; são ás de paus, dama de copas, reis e valetes, todos poderosos e imponentes em seus trajes majestosos, ditando meu futuro incerto que não me interesso verdadeiramente em transcrever. Despejo as pílulas do tubo ali em cima, e aí fica um mosaico estranho e colorido, as cores são bonitas a mim – sou design gráfica, ou era, como algum pedaço de papel quis imprimir em minha personalidade a algum tempo atrás, fruto de algum esforço despendido com certa alegria durante alguns anos sentada com a caneta pendurada nos lábios e os olhos atentos àquela nuca vincada que logo a frente parecia rude e ao mesmo tempo lírica aos meus sentidos estéticos mais apurados. Escrevo então nomes com as pílulas, juntando a extremidade de uma com a extremidade de outra, uma tarefa divertida que faz o tempo correr enquanto dentro de mim não corre mais nada, talvez apenas um sangue quente e endurecido.
Escrevo com pílulas os primeiros anos alegres sob a tutela de sonhos ideológicos e românticos, em que a aproximação de um beijo me faria sentir um pavor histérico de moça recatada, como se os lábios alheios violassem uma lei impenetrável, cujo castigo seria imponentemente a pena de morte. Não, estes lábios curvados em reverência são mais do que duas mucosas apertadas, são dois grilhões do universo, são uma sentença não julgada, um apertar e afrouxar do coração que bombeia freneticamente. Meus lábios fazem reverência quando abertos, mas os juízes são severos: meus lábios procuram o pecado, mas vivem em santidade plena, inviolável.
A penteadeira ao meu lado com seu espelho mágico some. Despejo então meus pentes sobre as cartas, sobre pílulas e lembro ternamente que um dia na praia eu havia pensado que nenhum pente no mundo arrumaria meus cabelos bagunçados por aquele vento infernal enquanto no processo de desmoronamento do mundo eu esquecia espantosamente aquela nuca vincada – mas não os olhos tristes, contudo os olhos tristes deixariam de me percorrer o corpo como um mistério em que eu fosse a maior e mais destemida dos detetives de almas; não, antes aqueles olhos apenas me transmitiam uma melancolia que não me pertencia mais – e olhava o sol e o mar rebentarem nos meus olhos e ouvidos com toda a força que poderia imaginar existir dentro de mim.
É um sorriso que está dentro agora, o armário desaparece sem deixar vestígios a não ser pegadas sujas de lama no assoalho. As roupas já não me servem, deixaram de me servir há muito tempo atrás, quando um pedaço de pano sobre o corpo era uma prisão atordoante, quando tudo o mais que eu queria sentir era a coroação suprema de um amor que eu enxergava como a mais implacável de todas as prisões. As roupas, então, eram a prisão dentro da prisão e Ricardo me deixava dentro de ambas, este Ricardo severo, maluco, que fitava o vazio enquanto eu via em seu olhar que não tinha nada de triste mas sim de pavoroso, o pavor que todos meus sentidos queriam acolher. Ricardo venho a mim como o despejo de um outro amor que deixei balançar ao vento na praia. Mas Ricardo ao mesmo tempo me privava de meu maior sentido, o sentido de estabelecer um limite para o amor que eu via crescer dentro de mim sendo uma bomba com tempo limitado: tudo iria explodir à minha volta, mas eu não queria a explosão fora de mim, ah, não, esta explosão só poderia vir de dentro e justamente aí ele me aprisionava, recusava-se inexplicavelmente a tornar em pecado mais do que meus lábios, mas todo meu ser, embora o pecado em que eu estivesse a procurar fosse na verdade aquela coroação suprema da maior santidade que havia em meus sonhos, seria o pecado que me levaria à libertação integral de tudo que me possuía. É de se compreender, quando olho por um momento em volta, antes que o armário se vá definitivamente, que eu mude de idéia – ainda sem prestar atenção a tudo em volta – e pegue todas as roupas da gaveta e as despeje sobre meus mosaicos tão valiosos agora aos olhos como ao sentidos.
Ricardo não veria nos meus sentidos nada mais que alguma arma que eu lhe atirasse furiosamente; eu via em seus rompantes oriundos da mesma origem que a minha, apenas flechas que não eram propriamente armas, mas sim alimento para minha paixão. Existia assim uma necessidade de eu me ver completa, de sentir que meu sentir lhe era repelido com tanto enigma e contradição que me deixava ás beiras da loucura, mas a esta loucura, me vinha de encontro as respostas que sempre buscava, um ciclo hediondo em que cada vez mais eu descobria fundo de mim a mulher furiosa e descontrolada se perdendo em algo que pouco a pouco ia se privando de todas as justificativas possíveis de se acatar. O algo que eu já não sabia mais o que era, apenas mergulhava dentro de, buscando vez ou outra a superfície para ter um pouco que seja de ar dentro dos pulmões. Inevitavelmente, um dia, eu iria mergulhar tão fundo encantada com a luz do sol refletida nos corais lá embaixo, que iria afundar de vez na escuridão do mar, sem conseguir ter forças para chegar lá em cima para respirar novamente. Ricardo sabia disso. Sabia mais do que ninguém. E um dia ele chega a meus ouvidos e a meus olhos inchados e diz: “eu tentei...eu tentei te amar.”
É a vez do criado-mudo. Tudo que tentei amar poderia estar dentro dum criado-mudo, um belo dum criado mudo alto e assustador, vestido com roupas de um mordomo, que visse terríveis segredos se desenrolarem dentro da casa de seu patrão, mas nada poderia dizer porque sua impossibilidade estava destinada a ser seu fardo. Muitos me amaram. A estes, eu tentei amar. Tentei amar novamente sempre como o despejo de um novo amor. Sendo assim, pego as cartas embrulhadas e as despejo sobre a mesa, e agora o quadro que me aparece não é algo bonito tampouco provido de ordem, e sim um amontoado de coisas e mais coisas que me deixam de enxergar qualquer objeto real no meio daquilo tudo. Existem cartas de amor, cartas de amigo e enquanto passeio as mãos – e olhos rapidamente – sinto um fugaz arrepio no meu estômago e descubro mais uma vez que existe por trás de todas estas trilhas percorridas o algo maior que me preenche e se torna o objetivo maior de minha vida. Por ela, eu despejaria o tudo o mais. Mais uma vez, enxergo então por baixo daquela confusão de objetos, as pílulas. Vejo Ricardo dentro delas. Vejo a destruição de sua ausência. Vejo, entretanto, a morte que ele fez justamente neste objetivo maior que me faz inteira por dentro. Eu sequei, fiz-me podre e infértil, um saco vazio sem qualquer sustentação. Não me senti mulher por todo este tempo, sequer fui mulher durante todos estes anos. Não queria nada mais que os segredos do pecado estampados num lençol, coroando, como já disse, os limites da paixão que me faz flutuar na santidade.
Está quase tudo vazio. A penúltima delas, é tomada de assalto e se vai com certa dificuldade. Eu sei. A cama pesa duas toneladas. Não seria fácil a ela sumir assim tão rapidamente. Nela foi finalmente feita a vontade do profano, e mil anjos tocaram trombetas em cima. Uma chuva fina caiu sobre nossas cabeças e pudemos nos sentir purificados de todos nossos desencontros. Despejo o lençol sobre a mesa e cubro todos os objetos que estavam nela. Amarro tudo e coloco sobre meus ombros. Em pé, posso então sorrir com o peso da cama sumindo.
Ele me veio despejado por suas próprias angústias, por um mundo que não lhe supriu de forma alguma o seu grande saco vazio – a semelhança do meu – e lhe deixou tão destruído e corrompido quanto um santo poderia ficar. Ele, por sua vez, os seus lábios, procuravam a santidade, mas viviam no eterno pecado. A ele, a busca era a santidade no inferno. Quando ele veio a mim, foi despejado então como Lúcifer o fora do paraíso. Mas ele veio tão casado com minhas próprias religiosidades do corpo, que o fruto de toda esta destruição que nos atingia só poderia gerar um casamento perfeito entre os justos e os ímpios, e desta forma se rompeu sobre minha cama a explosão de um encontro que salvou tanto minha alma do pecado, quanto a dele, da santidade. Nada mais que um duelo de titãs. Nada mais poderia pesar tanto sobre uma cama como esta união perfeita de tanta destruição gerada pela criação. Suspiro aliviada: a cama já se foi.
É chegada a hora, penso. Existe tranqüilidade. Ela está presente em mim há algum tempo. Não é tranqüilidade dos monges, mas antes uma serenidade que me permite estar de acordo com aquilo que me move e me faz ser tanto eu quanto poderia. Não acho nada estranho esta serenidade advir de uma micro mutilação dentro do meu corpo. Esta serenidade me deixa inquieta todos os dias, e assim posso me sentir viva, pois sinto que aquilo que esteve sempre comigo como uma ordem do que deveria fazer de minha vida algo valioso, isto está vivo e arde com força. Eu amo. O Amor, desta vez, não foi um despejo meu, mas venho até mim assim. Um ciclo que agora se mostra com todo sentido. Ele criou o sentido. A mesa, finalmente, levanta-se e vai indo embora rapidamente. Antes que ela suma, pego de cima dela a ordem de despejo, coloco o lençol com os pertences dentro de uma mala, fecho-a e me encaminho para a porta da frente.
Lá fora, está esperando aqueles olhos tristes com sua nuca vincada. Lhe dou as mãos e caminhamos na direção do final da rua, onde o sol se põe belamente. Lhe olho de solaio e vejo seus olhos, mas seus olhos não são mais tristes: o mistério que antes eu insistia em procurar, já estava desvendado.
sexta-feira, janeiro 05, 2007
Conceição (1.ª versão)
à maria
um poema na lagoa como uma moeda
no poço por onde escoa o limo
no fosso, a lágrima do menino.
um poema na lagoa roga a todos
os santos bem a jeito de garoto e sua pedra no fundo
do poço a lagoa, entretanto, em seu encanto
não é recanto de todos os santos;
a eles canta a baía, acima, um estrondoso
dum canto.
a água no sul, é de Conceição
uma só dona, uma só canção.
Lagoa da Conceição,
o poema em chama desaba
cai sob sol, sob música, sobre lava,
mas não esconde no poço
o desejo de uma lágrima atirada.
um poema na lagoa como uma moeda
no poço por onde escoa o limo
no fosso, a lágrima do menino.
um poema na lagoa roga a todos
os santos bem a jeito de garoto e sua pedra no fundo
do poço a lagoa, entretanto, em seu encanto
não é recanto de todos os santos;
a eles canta a baía, acima, um estrondoso
dum canto.
a água no sul, é de Conceição
uma só dona, uma só canção.
Lagoa da Conceição,
o poema em chama desaba
cai sob sol, sob música, sobre lava,
mas não esconde no poço
o desejo de uma lágrima atirada.
terça-feira, novembro 28, 2006
trecho (sem começo, sem fim - 1.º tratamento)
do fundo desta carcaça sofrida
cultivo o fascismo parasita dos homens
nos rostos, cada um página lida
que logo mastigo, cuspo e digo adeus
como neste mundo não vale a pena
a sorte de conhecer nenhum ser
- embora os rostos que leio,
me povoem sempre ensejos -
é com desprendida alegria
que largo tudo à revelia.
cultivo o fascismo parasita dos homens
nos rostos, cada um página lida
que logo mastigo, cuspo e digo adeus
como neste mundo não vale a pena
a sorte de conhecer nenhum ser
- embora os rostos que leio,
me povoem sempre ensejos -
é com desprendida alegria
que largo tudo à revelia.
quarta-feira, agosto 30, 2006
quinta-feira, agosto 24, 2006
uma linda história cristã
sim, eu estava lá
junto aos brutamontes
deste lado de cá
a diferença grande
é que eu queria jogar a pedra no cristo
e levar a puta embora
mas o filho da puta, mais rápido e cético,
jogou antes.
junto aos brutamontes
deste lado de cá
a diferença grande
é que eu queria jogar a pedra no cristo
e levar a puta embora
mas o filho da puta, mais rápido e cético,
jogou antes.
terça-feira, agosto 22, 2006
Samba da Eli (para minha amiga Eliege, rs)
ê nega, vem pra mesa
que por trás destes óculos vermelhos
eu sei teu sorriso, esta beleza
a contaminar os ensejos
de mais uma noite de samba
neste bar com jeito de terreiro.
levanta teu copo!
e deixa a gente ouvir
esta risada matreira
na noite que há porvir.
mas toma tento, Eli!
você há de convir,
tanta felicidade desse jeito assim
não é freguesa aqui
pôe teu coração na mesa
e não deixa que ninguém veja
assim a gente canta mais uma
e te vendo quieta, se atropela
se arruma e pega tua tristeza
pra jogar no olho da rua
e o que que há, nega maluca,
nosso samba pergunta
"é noite de boiadeiro", você resmunga
o coro responde:
"que nada, é toda toda tua!"
mas toma tento, Eli
você há de convir,
tanta felicidade desse jeito assim
é bem vinda aqui sim!
que por trás destes óculos vermelhos
eu sei teu sorriso, esta beleza
a contaminar os ensejos
de mais uma noite de samba
neste bar com jeito de terreiro.
levanta teu copo!
e deixa a gente ouvir
esta risada matreira
na noite que há porvir.
mas toma tento, Eli!
você há de convir,
tanta felicidade desse jeito assim
não é freguesa aqui
pôe teu coração na mesa
e não deixa que ninguém veja
assim a gente canta mais uma
e te vendo quieta, se atropela
se arruma e pega tua tristeza
pra jogar no olho da rua
e o que que há, nega maluca,
nosso samba pergunta
"é noite de boiadeiro", você resmunga
o coro responde:
"que nada, é toda toda tua!"
mas toma tento, Eli
você há de convir,
tanta felicidade desse jeito assim
é bem vinda aqui sim!
terça-feira, junho 20, 2006
a primeira vez a gente sempre esquece (1.ª idéia)
quando um louco surtado olhou em meus olhos,
na aurora dos meus passos de bêbado,
eu não vi nada mais do que a lágrima triste de um palhaço
que havia em mim mesmo.
e o palhaço, na lágrima solta, ria sem medo
porque na ponte que ali havia
minha alma encontrava a dele e dele dizia
que das dores que vêm do mundo ainda é cedo.
quando eu louco surtado me vi no espelho
anos depois da aurora de meus passos trôpegos,
perguntei a quem me fitava onde estava a ponte.
com terror ele não falou nada, apenas se afastou,
pouco a pouco se deitando
sem saber muito bem se alguém havia
lhe perguntado algo.
na aurora dos meus passos de bêbado,
eu não vi nada mais do que a lágrima triste de um palhaço
que havia em mim mesmo.
e o palhaço, na lágrima solta, ria sem medo
porque na ponte que ali havia
minha alma encontrava a dele e dele dizia
que das dores que vêm do mundo ainda é cedo.
quando eu louco surtado me vi no espelho
anos depois da aurora de meus passos trôpegos,
perguntei a quem me fitava onde estava a ponte.
com terror ele não falou nada, apenas se afastou,
pouco a pouco se deitando
sem saber muito bem se alguém havia
lhe perguntado algo.
quinta-feira, março 30, 2006
Chicó de Anasé!
porra! estou feliz pra caralho! um contato ali, outro aqui, conversas intermináveis, uma procura desenfreada e...voilá! finalmente consegui adquirir meu exemplar do "Do pó me levantei, na terra me deitarei", o único livro de poesias do mestre chicó. paguei quarentão por um livro com um pouco menos de 100 páginas e mandei vir direto do mato grosso do sul, mas porra, valeu o esforço. é uma raridade de valor incalculável. estou aqui folheando com sorriso de ponta a ponta. mas enfim, o post de hoje dedico ao grande mestre, com duas poesias dele.
DESABROCHAR DE UM BÊBADO
Matagal sem fim proclama minha hora
Da horda infame augusta garrafa em rolhas de órbita
O vôo alto, o giro é meu!
Que do gole estrondoso virei borboleta
E desde então nunca mais consegui planar em linha reta.
QUANDO APRENDI A SOFRER
Nas agrura da vida fui crescido
Por ser demais olhador
E também senti o amor
Por causa do qual tenho sofrido
Te digo meu cumpadre, é duro esta história
Que entre um gole e outro estou a contar
Mas vá lá, o amor e o pescador tem lá sua glória
Como é este meu causo de mesa de bar:
Meu primeiro amor foi uma tal de Cândida
Uma vaca mui respeitosa do pasto de meu avô
Tão cheinha e formosa como a beleza pedida
E não pense que era de muitos caprichos meu sinhô
Era só uma estocada e pum!
ela já mugia dizendo Eu ti amum!
Mas, contratempo - venho meu predecessor
Matou Cândida e da sua carne fez seu motor
Que de bexiga e intestino cheio é que vive o tal do homem
Chorei e chorei por muitas primavera então
Sentindo o que é sofrer de descer lágrima ao chão
Mas, o que me doía, não era falta de Cândida não;
Era ter conhecimento, para minha sensatez
Que Cândida passou pelo espeto duas vez.
Chicó de Anasé
DESABROCHAR DE UM BÊBADO
Matagal sem fim proclama minha hora
Da horda infame augusta garrafa em rolhas de órbita
O vôo alto, o giro é meu!
Que do gole estrondoso virei borboleta
E desde então nunca mais consegui planar em linha reta.
QUANDO APRENDI A SOFRER
Nas agrura da vida fui crescido
Por ser demais olhador
E também senti o amor
Por causa do qual tenho sofrido
Te digo meu cumpadre, é duro esta história
Que entre um gole e outro estou a contar
Mas vá lá, o amor e o pescador tem lá sua glória
Como é este meu causo de mesa de bar:
Meu primeiro amor foi uma tal de Cândida
Uma vaca mui respeitosa do pasto de meu avô
Tão cheinha e formosa como a beleza pedida
E não pense que era de muitos caprichos meu sinhô
Era só uma estocada e pum!
ela já mugia dizendo Eu ti amum!
Mas, contratempo - venho meu predecessor
Matou Cândida e da sua carne fez seu motor
Que de bexiga e intestino cheio é que vive o tal do homem
Chorei e chorei por muitas primavera então
Sentindo o que é sofrer de descer lágrima ao chão
Mas, o que me doía, não era falta de Cândida não;
Era ter conhecimento, para minha sensatez
Que Cândida passou pelo espeto duas vez.
Chicó de Anasé
terça-feira, março 28, 2006
curitiba, sua filha da puta (1.ª e rudimentar versão)
curitiba, minha cara
os poetas estão nascendo no teu seio raro
estão bebendo do teu leite amargo
nas esquinas de todos os bares
olhe pra dentro de nós
porque estamos
olhando através de você
as palavras que amamos
enquanto morremos
os verdadeiros poetas
sabem como te acariciar
com um pinto por debaixo das pernas
e não uma mesa e os óculos em cima da mesa
cidade maldita, você não é poesia
apenas escreve certo por calçadas certas
a vida torta dos heróis à revelia
vive ao avesso
a contradição perfeita de suas avenidas
o futuro póético
está nos teus botecos,
na sarjeta,
nos caminhos incertos
de sua madrugada de silêncio
gritada aos ventos
na praça tiradentes
os anjos caídos dormem
a insônia das latas
o gole tira a fé dos crentes
os poetas querem recitar:
mas você enrolou a língua deles
curitiba, sua filha da puta
fica comigo...
e me transforma em poeta também.
os poetas estão nascendo no teu seio raro
estão bebendo do teu leite amargo
nas esquinas de todos os bares
olhe pra dentro de nós
porque estamos
olhando através de você
as palavras que amamos
enquanto morremos
os verdadeiros poetas
sabem como te acariciar
com um pinto por debaixo das pernas
e não uma mesa e os óculos em cima da mesa
cidade maldita, você não é poesia
apenas escreve certo por calçadas certas
a vida torta dos heróis à revelia
vive ao avesso
a contradição perfeita de suas avenidas
o futuro póético
está nos teus botecos,
na sarjeta,
nos caminhos incertos
de sua madrugada de silêncio
gritada aos ventos
na praça tiradentes
os anjos caídos dormem
a insônia das latas
o gole tira a fé dos crentes
os poetas querem recitar:
mas você enrolou a língua deles
curitiba, sua filha da puta
fica comigo...
e me transforma em poeta também.
terça-feira, março 14, 2006
uma de nossas noites (1.ª versão)
é uma noite fria
dentro de nós dois
caminhando na calçada confusa
escurecendo pensamentos e versos
apagando sem perdão
a tempestade que grita
morrendo nas minhas mãos
não resta coração
nem briga
nem um abrigo
pros meus erros
na noite fria
nada se cria
entre eu e você
distância de lábios e estrelas
pra se percorrer
cegos na direção
a noite desmaia em teus braços
enquanto velo teu sono
com a lua dos meus sonhos
debaixo dos olhos
a noite medrosa
comanda teus segredos
quando te deseja
se machuca embora
saiba a resposta
de todos os teus desejos
a noite sem você
é um colírio estranho
alivia os olhos
mas irrita a alma.
dentro de nós dois
caminhando na calçada confusa
escurecendo pensamentos e versos
apagando sem perdão
a tempestade que grita
morrendo nas minhas mãos
não resta coração
nem briga
nem um abrigo
pros meus erros
na noite fria
nada se cria
entre eu e você
distância de lábios e estrelas
pra se percorrer
cegos na direção
a noite desmaia em teus braços
enquanto velo teu sono
com a lua dos meus sonhos
debaixo dos olhos
a noite medrosa
comanda teus segredos
quando te deseja
se machuca embora
saiba a resposta
de todos os teus desejos
a noite sem você
é um colírio estranho
alivia os olhos
mas irrita a alma.
domingo, janeiro 29, 2006
isto não merece título. apenas uma gozada no olho. (qual olho, você decide camarada, se é que existem olhos ou mais de dois (!?)
a vida será mais fácil quando eu não tiver que justificar minha existência.
quarta-feira, dezembro 21, 2005
a inominável ânsia de existir e ser
me dêem atenção! o mundo deve me dar atenção! eu sou KING KONG! estou apaixonado. mas na verdade quero foder. mas o pinto é grande! como fazer? um ser que não pode foder! vou procurar, um prédio, uma janela deve dar conta do recado...humm..mas rasgará meu pinto peludo de gorila. KING KONG QUER FODER! mas não é só a energia sexual, é a energia misteriosa que não pode ser saciadao demônioo demônioKING KONG rasgando a pele, saindo saindo pra noite. uma volta poderia me jogar de encontro à noite...ela poderia me envolver com seus cheiros caóticos, me embalar numa corrente de fumaça, enfiar o dedo em minha goela e fazer os demônios sairem cuspindo fogoxoxotas avulsas voariam em uníssono, as embaixatrizes da noite preparando sua chegada...emitindo sons estranhos e bizarros, com sumos vaginais sendo expelidos pelos buracose depois delas, viriam a ala dos depravados, sempre pedindo perdão com as mãos estendidas e se retorcendo pros olhos não cairem das órbitas. alguns estariam tocando seus membros freneticamente, ainda que, com uma tentativa de dissimulação mal executada. KING KONG QUER FODER!esterei alucinando em algum outro canto de curitiba em busca da infância perdida (!)(?) xoxotas voadoras, xoxotas ébrias...naum. a noite que espere. aqui dentro deste mundo só vejo xoxotas calmas e arredias. (e com que liberdade este homem aqui usa a palavra xoxota, cavalheiros, que vulgar e pretensioso e babaca e falso!) KING KONG QUER FODER!é..este é meu medo. posso ver meu pinto sorrindo em direção a elas, soltando a língua pra fora e provocando-as sutilmente...temos de domesticá-las. domesticá-las, aí tá uma idéia interessanteum pinto vestido com um capuz preto (com o furo pra boquinha da cabeça) e um chicote na mão (?)...slapt! a primeira chicotada abre um rasgo bem do lado dos lábios maiores slupt! a segunda chicotada atraca-se bem no clítoris...o pau se agarra e balança pendurado...ooooooooooooooooooooooooowwwwwwwwww...tarzan desbrava a selva mas o animal arredio ainda resisteporém um pingo cai do buraco xoxotal revelando que a misteriosa caverna dá sinais de fraqueza...sim senhores! a carne é fraca como todos dizem desde os tempos remotos, a-d-ã-o bolinando e-v-a (oh, ímpios, não seria o contrário?) em seu leito ao relento, tarzan puxa seu chicote, slorpt puft tablof! a chicotada final atravessa todo o períneo, ops, perímetro do animal-buceta e adentra a caverna...o segredo maior está por vir, grand finale, o buraco de minhoca, a passagem pra outra dimensão, caos, caos, e mais pingos vêm, sumos, rios, cachoeiras, A CARNE É FRACA, A CARNE É...FRACA. o homem entra na caverna. é triste saber, mas platão já nos disse...que ele nunca mais saiu. (delírios de curitiba again ou meu estado de ânimo do momento)
sexta-feira, dezembro 02, 2005
Porra sei lá!!
Express yourself! então galera, ouvindo esta música agora de um tal de charles wright que devia ser um daqueles negões com óculos imensos, correntes, cercado de mulheres sacudindo tudo que é porra cantando um funk do caralho. clima de putaria, alegria todo dia. porra, os ecos desta música tão ardendo no meu cérebro...e aí me vem umas imagens de palmeiras balançando, mulheres dançando de biquiní, praia e aquele bom e velho clima de HARMONIA EXISTENCIAL que só existem em alguns momentos aleatórios e caóticos de qualquer existência. este é o objetivo. o pesadelo é o contrário. de tudo isso, tou dizendo. mesmo porque a música acabou, e tudo o que escrevi até aqui era O SONHO. não a realidade. a realidade, ainda tou enfrentando ouvindo alguma coisa mais psicodélica....mas que se foda... (deliríos de curitiba mais uma vez)
terça-feira, setembro 06, 2005
NASCIMENTO (1.º tratamento)
(pra uma amiga que foi embora)
adeus, você disse
digo apenas boa noite
dentro de mim
coloco seu sorriso pra dormir
e cubro teus olhos com a memória
dos momentos que querem partir.
rezo pra que sua voz não se perca
no meio de todas lá fora,
velo teu sono enquanto a noite desmaia em teus braços
peço pra lua te conhecer
pra depois me lembrar como você é
saio ao jardim, pulo a cerca
percorro todas as trilhas de nossas conversas:
quando o dia amanhecer seguirei o caminho passo a passo.
adeus, você disse
não aceito
aceito apenas a leve respiração do teu sono
desenhando no ar tua presença.
o tempo haverá de publicar todas as obras
que você escreveu nos meus dias
não me importo se foram poucas,
já me basta ter sido intensas todas as horas.
não me importo se não rompemos
a distância sutil das almas:
suas linguagens encontram-se roucas
quando a vontade de se encontrarem chega ao extremo.
sinto qualquer coisa
quando te vejo aos poucos adormecer
insistindo em dizer adeus
seguro sua mão como se segurasse o cordão da vida
para não deixar nosso laço perecer
e quando finalmente teus olhos já não me lembram
o que me encantou, me satisfaço apenas em saber
que onde você estiver, estará sonhando
e trazendo tudo que tive a quem merecer.
adeus, você disse,
mas eu respondo apenas boa noite,
porque quando amanhecer lá longe,
você ainda estará comigo.
adeus, você disse
digo apenas boa noite
dentro de mim
coloco seu sorriso pra dormir
e cubro teus olhos com a memória
dos momentos que querem partir.
rezo pra que sua voz não se perca
no meio de todas lá fora,
velo teu sono enquanto a noite desmaia em teus braços
peço pra lua te conhecer
pra depois me lembrar como você é
saio ao jardim, pulo a cerca
percorro todas as trilhas de nossas conversas:
quando o dia amanhecer seguirei o caminho passo a passo.
adeus, você disse
não aceito
aceito apenas a leve respiração do teu sono
desenhando no ar tua presença.
o tempo haverá de publicar todas as obras
que você escreveu nos meus dias
não me importo se foram poucas,
já me basta ter sido intensas todas as horas.
não me importo se não rompemos
a distância sutil das almas:
suas linguagens encontram-se roucas
quando a vontade de se encontrarem chega ao extremo.
sinto qualquer coisa
quando te vejo aos poucos adormecer
insistindo em dizer adeus
seguro sua mão como se segurasse o cordão da vida
para não deixar nosso laço perecer
e quando finalmente teus olhos já não me lembram
o que me encantou, me satisfaço apenas em saber
que onde você estiver, estará sonhando
e trazendo tudo que tive a quem merecer.
adeus, você disse,
mas eu respondo apenas boa noite,
porque quando amanhecer lá longe,
você ainda estará comigo.
terça-feira, agosto 30, 2005
"...e um voou por sobre o ninho do cuco."
os culhões estão mortos. estão sendo devastados como árvores. bukowski talvez tenha tido a sacada do século com o conto “o espremedor de culhões”, mas ele foi demasiado simbolista no lance. quem foi mais direto ao ponto foi o acido man Kesey, este sim, o fodão que viu o testículo morrer e presenciou (não só uma vez, cavalheiros) o grito agudo e seco da ex-vigorosa vítima. um grito de desespero, bem entendam, uma coisa qualquer na linguagem primitiva que quer dizer “fodeu” e agora fica mais difícil levantar da cama, porque o piu piu não tá lá pra fazer vc se sentir alguém. mas voltando ao kesey, este cara foda. eu li esta semana o clássico “um estranho no ninho” e puta que o pariu, que livro. Não, não é um livro. é uma mão aquilo e ela te aperta os bagos desde o começo, meio que te fazendo sentir um pouco do que é que estão fazendo por aí. há muito tempo eu não fumava cigarros incontroláveis ao ler um texto, há muito não odiava tanto um personagem (será que posso chamar aqui de personagem? a importância e símbolo daquela velha vai muito além do que se possa categorizar como.) a ponto de, se ela estivesse na minha frente, pular no pescoço e estrangular até a morte, como fez o mcmurphy no final (ah, e que alívio imaginá-lo fazendo). E porra, quantos momentos memoráveis neste livro, quantas frases fodidas, quantas alucinações (as mais lúcidas de todos os tempos) do velho chefe bromden. Mas o melhor mesmo é pegar o filme e ver aquela imagem meio de baixo, daquela imensa janela quebrada e em seguida ver o chefe quase que flutuando no jardim do hospício. um estranho no ninho? então voemos sobre ele, em vez de rumar ao leste ou ao oeste.
sexta-feira, junho 03, 2005
Freud e a viadagem: associações bizarras através de estranhas conexões cerebrais
hoje fui no sexólogo. sim, de SEXO. aquele mesmo que trata casais em crise ou palestra sobre sexo seguro pra jovens, tudo muito didaticamente, é claro, como se sexo fosse como montar uma barraca no meio do mato ou coisa assim. hein? ah não, nada demais...só alguns distúrbios realmente muito sérios meus, falta de orientação sexual e mais algumas coisinhas que, sabem, andou incomodando minha vida aí nestes últimos tempos. mas tem uma outra coisa, que na verdade é o real motivo de perturbação e me levou até esta situação embaracosa. depois de um trauma amoroso (do amor que não foi!!?), começou-se a se desenvolver uma bizarria um tanto curiosa com minha pessoa. EU SOU VIADO. esta idéia começou a me perseguir como uma obsessão paranóica sem precedentes. me lembrou um TOC, com aquela coisa toda da idéia obsessiva e o ato físico pra sanar a idéia, mas o meu funcionava da seguinte maneira: vinha a idéia obsessiva da viadagem, tipo olhar homens e sentir uma “estranha sensação” e associar isto à desejo, e então uma punheta pra sanar a idéia, lógico, pensando em viadagem e toda besteirada tal. longas horas tensas em um mês assim me levaram a virar um PUNHETEIRO de carterinha e pulso firme, quer dizer, mole (mesmo por causa do tema da situação), pra poder facilitar o ato. então eu estou lá, neste tal consultório com o tal SEXÓlogo, divagando sobre bizarrias fantasiosas de uma mente “expandida”, espondo a situação quase que cientificamente.
“eu tenho um pensamento e uma sensação de que estou com trejeitos de viado...bem, sinto que estou com o pulso esquerdo meio molengão, caído, engraçado porque é só o esquerdo, mas também sinto jeitinho meio esquisito e...” ele olha enviesado pra mim. “porra, desde que vc chegou aqui e já faz uma hora, eu não vi em você nenhum sinal de bichice.” "mas quanto às punhetas e os pensamentos obsessivos?” eu insisto, como um masoquista. “é natural, cara, depois de tantas pressões, situações embraçosas, traumas amorosos, que você esteja vivenciando este tipo de coisa...lembra o negócio lá do regressivo do Freud?” eu reflito, e depois de toda sessão mesmo, me sinto mais aliviado da ansiedade e um pouco mais lúcido. finalmente pergunto, “tá, mas doutor, e agora o que que eu faço pra salvar toda esta situação e sei lá, ser uma pessoa com a sexualidade em dia?”. a resposta clássica: “PELO AMOR DE DEUS, PARE DE LER FREUD!”
“eu tenho um pensamento e uma sensação de que estou com trejeitos de viado...bem, sinto que estou com o pulso esquerdo meio molengão, caído, engraçado porque é só o esquerdo, mas também sinto jeitinho meio esquisito e...” ele olha enviesado pra mim. “porra, desde que vc chegou aqui e já faz uma hora, eu não vi em você nenhum sinal de bichice.” "mas quanto às punhetas e os pensamentos obsessivos?” eu insisto, como um masoquista. “é natural, cara, depois de tantas pressões, situações embraçosas, traumas amorosos, que você esteja vivenciando este tipo de coisa...lembra o negócio lá do regressivo do Freud?” eu reflito, e depois de toda sessão mesmo, me sinto mais aliviado da ansiedade e um pouco mais lúcido. finalmente pergunto, “tá, mas doutor, e agora o que que eu faço pra salvar toda esta situação e sei lá, ser uma pessoa com a sexualidade em dia?”. a resposta clássica: “PELO AMOR DE DEUS, PARE DE LER FREUD!”
quarta-feira, junho 01, 2005
estranhas reflexões numa noite de quarta sobre pessoas e a busca pelo inferno
muitas pessoas, às vezes até muito próximas, vêm até mim querendo conhecer o "submundo". buscam a degenerescência, a decadência, o limiar, aquela fronteira invisível entre a sanidade e o descontrole, este descontrole gerado pelas privações as mais diversas. elas querem conhecer A Perturbação, porque se sentem melhores consigo mesmas, se sentem fortes diante de seu mundo plástico e falso, isto lhes tira a culpa de viver à margem do que realmente é, à margem de toda podridão e excreção. o problema é que isso nunca vai vir até eles, porque eles realmente não têm A Perturbação dentro de si. uns poucos a têm, mas nunca tiveram culhões de destrinchá-la com a necessária dose de honestidade e penetrarem no âmago da situação toda. costumam julgar e culpar todo tipo de ato que fuja às diretrizes normais de uma sociedade perfeitamente moral. "oh, meu deus, como ele pôde fazer uma coisa dessas?" é uma pergunta pertinente em seus cérebros enojados ao verem um ser demoníaco assumir uma atitude infantil diante de um estímulo razoavelmente supérfluo, como agarrar uma garrafa e sair em busca da jugular do garçom que lhe pediu pra baixar o tom da voz diante de uma mulher porque estava assustando os outros clientes ou mesmo perturbando o estupor dos outros bêbados de almas sugadas. a verdade, como um amigo meu já me dissera, é que eles têm a vontade de fazer tudo ou quase tudo o que estes degenerados fazem, mas lhes faltam culhões. eles queriam testar seus próprios limites em busca da revelação e verdade e de uma existência humana mais digna e autêntica, mas isto provavelmente iria contra os parâmetros da normalidade e do aceitável, o que inevitavelmente provocaria conflito e dor. então conhecer alguém que lhes proporcione este contato indireto com a realidade parece lhes deixar satisfeitos e bem consigo mesmo. provavelmente dirão: ok, eu conheço esta raça, eu sei lidar com eles, eu sou foda, me respeitem, eu não estu por fora. de qualquer forma não é uma escolha muito sensata buscar o inferno nos dias de hoje. pode-se encontrar o diabo em pessoa e o mais terrível é ter consciência de que ele pode ser VOCÊ mesmo.
terça-feira, maio 17, 2005
(sem título)
nossas vidas banais
lembram um teatro popular
peça cheia de vida
escapole numa alegre folia
para deixar a tristeza escapar
minhas falas óbvias
não me fazem acreditar
em tuas pernas abertas
gozando dúvidas certas
que não aguento chupar
existe algo mais
em teus gestos improvisados
para provocar
num bacanal de derrotados
desejos incontroláveis
uma iluminação fraca
revela nossas marcações
neste palco de foliões
onde o sol nu acata
espermas indomáveis
baseio meu figurino
em seus seios eternos
que botam em desalinho
os falos mais ternos
o esforço de seu suor
na atuação mais obscena
traz o cheiro de morena
e meu texto de cor
para completar esta cena.
nossas vidas banais
lembram um teatro popular
peça cheia de vida
escapole numa alegre folia
para deixar a tristeza escapar
minhas falas óbvias
não me fazem acreditar
em tuas pernas abertas
gozando dúvidas certas
que não aguento chupar
existe algo mais
em teus gestos improvisados
para provocar
num bacanal de derrotados
desejos incontroláveis
uma iluminação fraca
revela nossas marcações
neste palco de foliões
onde o sol nu acata
espermas indomáveis
baseio meu figurino
em seus seios eternos
que botam em desalinho
os falos mais ternos
o esforço de seu suor
na atuação mais obscena
traz o cheiro de morena
e meu texto de cor
para completar esta cena.
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