quarta-feira, dezembro 08, 2010

Mais do Jorge Barbosa

Enquanto este que vos escreve mantém-se inútil e estagnado em matéria de criação cultural, outros poetas estão colocando a mão na massa: com vocês, mais um poema de Jorge Barbosa Filho.

Nossa Senhora dos Capilares

Sou o lobisomem

devoto de Nossa Senhora dos Capilares,

a única que acha cabelo em ovo.

Ela é de origem portuguesa

e sua epifania se deu numa barbearia.

Tem pelos nas costas, usa bigode.

Uma Santa que nem o diabo pode.

Drag Queen beatificada,

padroeira dos bichos hisurtos,

dos hippies e das vassouras de pelo.

Santa de dar inveja aos carecas.

Pois tem vários cipós debaixo do braço,

perucas nas pernas e cultua suíças.

É a Santa que o Tarzan cobiça!

Nossa Senhora dos Capilares! Orai por nós!

Sua primeira oração foi “As Mentiras Cabeludas”

e posteriormente, “Sabão Cra –Cra”.

Protetora dos pelos do nariz, tufos na orelha,

da família circense, em especial, da Mulher Barbada.

Uma Santa de arrepiar os cabelos,

mas pelo sim e pelo não

é a Santa de minha devoção.

Bento Pinto dos Santos

(Jorge Barbosa Filho )

sexta-feira, agosto 06, 2010

O diabo loiro está de volta!

E eis que o Jorge me envia um de seus novos poemas. E pelo jeito ele continua botando pra fuder. Segue:



flor de lisboa


(para Ana Griffo Antunes Coimbra)


perguntei por cantar
por que canto?
enquanto encanto a dor
num espanto!
luas e sóis na minha voz
e a canção por um fio.

ah! fina flor de lis boa
ah, na boa, coimbra!
és leve águia e leoa
e soas entre as sílabas.

teço teu fado alado
por isto grifo teu mito
e teu sorriso de fato
finda meus conflitos,
a fúria dos ventos impunes
ante a tudo, que antes unes...

ah, naquilo que musico
há! ana, ana griffo
dá-me o teu charme castelã
deixa-me rei dos teus fãs.

oceânicas peguntas!
cavalos marinhos
acesos em nossas bocas,
azuis, azuis, azuis do mais íntimo
do espelho que despe-se a toa:
nunca vi tantas mulheres numa!

ah! braços de porto e gal
à sombras de caetanos
e caravelas amamos
em nossas praias de mel e sal.

contemporaneamente antigo,
é meu beijo de porquês,
pois este poema é um jeito
de viajar um pouco contigo
sem que as malas as tenha feito
assim te amo em português...

Jorge Barbosa Filho




quinta-feira, julho 29, 2010

Lirismo alheio

Terceito autor (neste caso "a") que publico aqui no blog, vale a pena conferir o blog de Vanessa Rodrigues: www.vanrodrigues.wordpress.com
Um magnânimo exemplo de lirismo segue no texto a seguir, em que a autora alcança um patamar invejável de simbolismo e significado.

poética da concha

o bicho mais mole cria a concha mais dura, na medida exata de sua existência . expele o mal
rodeado em madrepérola. o mais inofensivo é o mais impenetrável dos bichos da
praia.

e é de dentro para fora que constrói essa casca. e do segredo de sua natureza, do mistério
daquilo que é feito, ele forma o concreto de sua cidadela.

mas só cabe um em sua fortaleza miúda.

- Vanessa Rodrigues -

quinta-feira, maio 20, 2010

LOKO DENIS E O MOMENTO METAFÍSICO

Pintura por Maria Luísa C. Fumaneri, 2010. Técnica: pincel de Paint.

Joaquim pegou o prato de apoio do pires e, com as unhas, começou a arranhar e arrancar pedaços da parafina acumulada pela queima de diversas velas. Loko Denis acompanhou o processo com olhos curiosos e inquisitivos. Focava-se na mão, em todos seus movimentos bruscos, os dedos grossos e as unhas ligeiramente sujas, empurrando com desajeitada força os tocos brancos. Naquele breve momento de reveladora filosofia, Joaquim falava – pausadamente – amenidades que Loko Denis não quis ou simplesmente não ouviu.
Pensava que numa situação dessas ele não saberia o que fazer, simplesmente não teria o conhecimento para saber que, para tirar aquele amontoado de cera branca de um prato deveria ser necessário arrancá-lo com a mão, e não com o uso de um detergente e um Bombril, mesmo pelo motivo de que apenas isso não funcionaria. Nesse momento, Loko Denis descobriu que nada sabia sobre a parafina da vela e, praticamente, nunca havia tocado uma antes. E isso demonstrava o quão sábio Joaquim era, tão somente pelo conhecimento empírico que acumulava. É lógico que essa percepção não vinha a Denis dessa forma, mas sim em códigos mais modestos, talvez suficientemente simbolizados pela figura do herói e da qualidade empática da admiração e a consequente afeição indefinida. Indefinida porque não-afeição, por mais paradoxal. Mas longe de compreender, Denis não precisa compreender. E, quando mais tarde, mais maduro já a caminho da meia-vida, meditava sobre o período, gostava de pensar se as pessoas mais jovens que o conhecessem agora também teriam essa percepção de sua própria figura, quando levantasse e jogasse fora os tocos das velas ou qualquer outra ação aparentemente banal e desinteressante, mas enquanto detalhe, figurava sublimidade inexplicável, talvez comparada ao vazio e preenchimento (!) da divulgação da Teoria do Caos, e, assim, essas pessoas achariam que ele era um homem sábio, um cara vivido, um cara com MUUUITO conhecimento empírico para dar. Nesta época viria a ter uma resposta.
O que importa é o tempo presente. E neste, Loko Denis saíra de seu repentino e profundo transe, porque Joaquim já terminara de jogar fora os tocos e acendia uma nova vela, deixando cair a cera quente sobre o prato e firmando-a.

quarta-feira, abril 28, 2010

TRAUMA

O maior herói que eu já desmistifiquei
foi eu mesmo.

terça-feira, março 30, 2010

NÃO HÁ NADA

Sim, companheiros. O encosto avançou novamente. Nada a falar por enquanto. A batalha ganha novos rumos, ainda indefinidos.

Como diria um amigo eu, assalamom!

E boa sorte a todos. Fiquem londe das drogas, camaradas.

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Poema novo de Jorge Barbosa Filho



Eis mais um poema de Jorge Barbosa.

Visite também http://www.myspace.com/jorgedoiraj

não me ame nunca


não me ame nunca
dizem, sou muito perigoso,
pois se te beijar a nuca
acabo te roendo o osso

da tua doce espinha
falam, é a minha arma,
pra me valer nas esquinas
e chegar ladino em casa.

não me ame nunca
dizem, sou muito pirado,
meus carinhos nas luas
não valem nenhum trocado.

acho que minha fama
não é assim tão pequena,
gritam, que só valho a pena
quando te levo pra cama.

não me ame nunca
dizem, sou muito bandido,
roubo sua alma e chuvas
e depois acabo fugindo.

perca a esperança então
rezam, sou homem e menino,
brinco pelo seu coração
que bate sempre arrependido.

não me ame nunca
dizem, que você me ama
enquanto tudo te espanta
não me ame nunca.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

FMAN B-SIDES

Depois de certa ausência, volto com mais um infame FMAN B-SIDE, os textos obscuros de uma época mais obscura ainda...com mais um poema que meu cérebro não recorda ter escrito.

(e novamente, pra quem não sabe do que se trata a série, procure o primeiro post)

a nossa música a gente inventa
conforme o tempo partido
de nosso amor assente
um poema de amor ferido
carta sentimental passada
nós escrevemos qualquer dia desses
enquanto esperamos tudo passar
ou mesmo na noite antes de despertar
nossas fúrias e desinteresse
o vazio da saudade
este acordará no tempo certo
de um tempo que lembramos perdido...
para sempre.

***
Pois é. A tosqueira continua.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

GENIAL

Bom, para evidenciar o meu ódio ao evangelho do vegetarianismo (vejam bem, antes de me encher o saco, tenham em mente que não tenho nada contra àqueles que têm essa opção, respeito é tudo; cada um tem o direito de comer o que quiser - o que me fode é aquela atitude comum à recém-gays, recém-evangélicos e vegetarianos que te olham com nojo porque vc lambe o sangue de uma picanha suculenta, que tentam a todo custo te converter e te impor a verdade de sua verdade), posto aqui uma pichação genial encontrada perto de minha casa, que ilustra bem o que penso:


CARNE É CRIME

(e logo ao lado um outro cidadão, que imagino melancólico e muito perspicaz, escreveu:)

FOME É FODA

Du caralho. Neste pequeno terrorismo poético urbano ele resume tudo. Não vou explicar minha interpretação. Isto fica pra cada um.
E volto a dizer, respeito e admiro a fundamentação argumentativa dos vegetarianos, mas não venham me encher o saco. Gosto de carne, já vi todas as atrocidades cometidas contra animais, mas, sinceramente, não me tocou de forma tal a me impedir de saborear seus corpos. Cadeia alimentar é cruel - poderia ser menos, é claro, com métodos mais adequados e menos atrozes.
Enfim, é isto. Preguiça de levar mais adiante.

domingo, dezembro 20, 2009

FMAN B-SIDES

Olá, companheiros. Neste domingo quente e sórdido, começo a lembrar de algumas coisas daquela época de loucuras. É impossível pensar nisto sem invocar meus amigos insanos que me acompanharam. Portanto, nesta terceira edição de meu B-sides, posto algo relativo ao tema. Como sempre, o poema não tem fim. A diferença é que eu me lembro de compô-lo, mesmo que vagamente. Bem, acho que eu estava sobre certa influência de Ginsberg, mas enfim...

meus amigos estão loucos
perambulando cheirados pelas ruas
no dia seguinte à noite da desforra
onde o acaso não lhes deu nada
nem uma resposta
nem uma dádiva
nem um bilhete marcado pra dentro de suas almas
estão preocupados
com suas barrigas proeminentes
chorando através do útero dos velhos barris de cerveja
estão assistindo tv
esperando a vinda do messias vestido num terno em liquidação
mas a ele só resta sentar e liquidar
uma garrafa de whisky num fim de noite qualquer.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

FMAN RECOMENDA

Apresento-lhes o trabalho de meu estimado e querido amigo, Daniel Seleme. O cara sempre escondeu seu intenso talento de todos, mas nunca me enganou. Graças aos bons deuses ele resolveu lançar um blog e publicar seus segredos. O endereço tá nos meus links. Confiram.
O Daniel é uma dessas pessoas de sabedoria e de olhar perscrutador, sempre curioso, tentando ir aonde nenhum homem jamais foi. Principalmente para dentro de si. Seu texto é tão poderoso, sincero e cheio de verdades e de uma visão poética que fui obrigado a reproduzi-lo aqui. Divirtam-se, canalhas!
***
EXCERTOS

Vida! Vida Vida, Allen. Veja só como as cidades pulsam vida. Veja o que o tropical verão do Brasil proporciona aos que o habitam. Ruas tomadas pelo sabor do sexo destilam essências estimulantes meu caro; afrodisíaco potencializado em fodas incessantes e trepadas que fariam o bom Marquês gozar atrás das grades. Sede! Orgasmo infinito e encantador. Culotes! Carros envenenados deslizam nas porras das esquinas e as prostitutas constrangidas com esse bacanal que o povo de cá brinca de viver.
Onde vais? Onde vou? Quando o mundo acabar colete suas coisas e venha comigo. O dia em que o mundo acabar estaremos mentindo na cama e você virá comigo, até o mundo acabar, não é mesmo DmBand? E agora que ele já foi...rss, aproveite. Fumaça, a cama está em chamas e eu nú fumando este tabaco, brasa maldita, minha fogueira, não sou bruxo não. Talvez um brincalhão, vento das sublimes florestas nipônicas. Agora o quarto ruborizou e as paredes escarlates fundem sombrias sombras que dançam a moda cigana. A cafeína preta ferve, obrigado. Um drink para lembrar e outro para esquecer, mais um drink e eu me irei. Hoje a Graça virá ao meu encontro e lhe oferecerei um drink, sorriso estampado e logo suas pernas se abrindo ainda mais contagiantes e receptivas, sanduíches de joelhos. Sim, sei que ela gosta quando os pressiono. E quando escorrega os braços desnudos sobre a mesa do bar. Depois sob as vestes e os olhares vermelhos dos que nos acompanham, desce até o eriçar da alma arrepiar num convite inevitável.
Alguns dias com uma dose de angústia, trancado na quitinete, ouvindo músicas e pensando o que poderia fazer, observo de perto as semanas correrem a galopadas. Nesta época posso considerar poucos caminhos visíveis em que me engendre a contento, por isso, optei em não fazer, fazer nada e deixar o tempo revelar novas hipóteses. Algumas mais nítidas. Talvez ainda não tenha entendido alguma escolha que esteja à minha frente. Matuto e penso, observo e tudo que vejo é a estrada através das janelas da minha jaula, que escondo as chaves em baixo do travesseiro e durante a noite, durante os sonhos, liberto para trilhar feliz a vida sem pormenores, intensa, dentro daquilo que realmente importa.
O duro preço da solidão é o amargo que impregna e sufoca em momentos de fraquejo. O músico do bar repete os mesmos versos; os bêbados continuam se arrastando pelas sarjetas; as terríveis mulheres tornam a foder com todos; as queridas nos tranqüilizam, o alvorecer do dia sepulta-nos vampiros; vampiros, até que o período do qual somos escravos chame-nos e o ciclo demoníaco continue. Ainda assim olho fixamente para a estrada florida da vida. Pesaroso, aguardo minha santa carona que conduzirá até o limite; assim torno-me livre e interajo com o vasto vazio.

- DANIEL SELEME - de sua série "Absurdos do Baú", parecida com a minha "B-sides", mas com a diferença de ser textos excelentes que ele esqueceu na gaveta.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

FMAN RECOMENDA

Arte e doença mental:

Laibach
http://www.youtube.com/results?search_query=laibach&search_type=&aq=f

Quaisquer vídeos deles. O grupo esloveno é frequentemente associado ao nazi-fascismo e ao autoritarismo. Eles respondem que é tudo sátira. Eu acredito. É só ver a bizarra (e doente) apresentação deles pra conferir. É impossível ficar impassível diante da figura excêntrica de Milan Frãs, geralmente o front-man da banda: suas roupas remetem a um militarismo bizarro, sem falar no chapéu que ele usa. Completamente insano.

Para puxar:
Easy stars all stars
O grupo tem 3 Cds. Eles fazem versões Dub (não sabe o que é - Wikipedia, mano!) de discos consagrados. Recomendo puxar todos: obras-primas. Imagine ouvir Dark side of the moon com riffs de reggae e remix(s) psicodélicos. A discografia é completada com versões de Ok Computer, do Radiohead e Sgt. Peppers (!) dos Beatles. Sonzeira. Pra quem quer Dub puro, original, recomendo o CD "Super Ape", do The Upsetters. Du caralho.

Richard Cheese (Discografia inteira)
Imagine um maluco fazendo versões lounge de músicas consagradas. Este é o cara. Prepare-se então pra ouvir "Welcome to the jungle" cantada em estilo Sinatra. É de se cagar de rir. Ou pior: letras cheias de palavrões (como "Smack my bitch up") cantadas com muita elegência. É foda.

That´s all folks!

segunda-feira, novembro 30, 2009

FMAN B-SIDES

Bom, digo desde já que este é o texto mais ridículo desta série. Novamente, trata-se de um poema cuja concepção e realização não estão registradas em minha memória. Graças a Deus. Como dizem por aí, se você não lembra, é porque não fez. Prefiro enganar-me assim. Analisando o texto, vê-se rimas forçadas, ingênuas. O sentido do poema inexiste, acredito, e as rimas trabalham apenas para si. Com um pouco de esforço, e se fosse numa linguagem mais simples, ele poderia até ser uma letra de uma música mais lenta de pagode. Enfim, divirtam-se canalhas e riam à vontade!
P.S. Se você não sabe o que é o FMAN B-SIDES, procure o primeiro post da série logo abaixo!

estou a mando de morrer.
a mando tal e qual
o mandato que decreta
o fim de todo carnaval
crendo, que, se de ver
a chama por trás
de um gesto carnal
apague a sede de não se ter
qualquer ordem banal
nascida como um bebê em dia de natal.

(ARGHHHHH!)

sexta-feira, novembro 20, 2009

A mais nova piração de Jorge Barbosa Filho (III)



É isso aí! Mais um da ótima série de cartazes do Jorge. Cliquem na imagem e divirtam-se, canalhas!

quarta-feira, novembro 11, 2009

FMAN B-SIDES


Okay, pessoal, após 3 anos, decidi abrir a caixa preta do meu período negro, vivido entre 2005 e 2006. Remexendo o pc descobri diversos arquivos que nem fazia ideia que existiam. Fazendo um esforço, lembro que todos foram escritos sob condições mentais adversas; perturbação, caos, todos em madrugadas intermináveis na frente da tela fazendo coisas proibidas e enchendo o cu de cachaça. É hora de vocês, leitores, terem, de grátis, um ticket para meu inferno pessoal. Esta é a nova série do blog, meus b-sides, textos nonsense, confissões, projetos de poemas, etc. todos feitos de dentro do olho do furacão.
O primeiro da série é bastante emblemático: os amigos mais fiéis lembrarão que este blog nasceu em 2005 sob o título "O cara mais chapéu de todos os tempos". Pois bem, publico o poema homônimo. Quem achar o sentido desta joça, por favor, me avise. Quero pensar que seja algo a mais do que uma tentativa de diálogo (em estado alterado de consciência) com o Arnaldo Batista.
Vejam, eu não lembro nem de criar este poema, então acho que não preciso me desculpar por ele não ter final. Beijos na bunda de todos. E aguardem os próximos posts da série.
o cara mais chapéu de todos os tempos

ele queria navegar
no meio da corrente sanguínea
de todos os tempos
com todos os ventos
soprados da maresia

pra ser uma célula
ele tragou as sequelas
de seus amores
mortos no asfalto
de estrelas belas.

O cara mais chapéu de todos os tempos
É um japonês que trabalha no circo
Dando piruetas ao avesso

quinta-feira, agosto 20, 2009

Post negro

Muito tempo sem nada pra vos dizer, incautos seguidores (que não sei se existem ou quantos são). Mas não há nada a dizer no momento. Escrever se tornou como a moça pela qual um dia vivemos um imenso e tórrido romance, uma paixão bufônica. É triste, mas parece que a vida está prevalecendo sobre a fantasia - aquela que se cria dentro de si, o mundo "paralelo" que regem as palavras e que criam a literatura. Minha literatura parece estar morta. Não a enterrei ainda, é muito doloroso. Enquanto isso, o cadáver permanece aqui, cheirando cada vez pior. É que lá no fundo, bem no fundo, não consigo admitir (ou melhor, desistir) que tudo foi pro saco. Tudo que vivi nos últimos anos (e também pode se contar os anos mais antigos) pareceu tirar de mim a crença de que as palavras podem ser tão poderosas quanto à vida, a realidade. A arte continua sendo a minha igreja...mas eu não ouço mais a voz do messias dentro de mim. Por isso, àqueles que porventura me acompanham aqui (volto a dizer, não sei quem ou quantos são - parece-me ser um grupo muito reduzido), perdoem-me a falta de publicações. Não sei que caminho isso vai dar.
É difícil enfrentar a morte de uma crença. Todos os homens precisam de uma - viver sem é como assinar um documento para o desespero, para o vazio, para a falta de sentido, para o caos total, o desamparo. Devo lhes confessar, caros, comecei a escrever muito cedo, comecei a ler livros muito cedo, e tudo aquilo era mais do que minha vida, era a catarse, era beleza, era denúncia, era deixar-se levar por algo maior do que a própria razão, pela coração, por tudo que transpirasse verdade em meus poros. E foram muitos anos assim. A arte era tudo. Mas quando a inocência se perde de vez, integralmente, em todos os sentidos, é difícil criar algo. Quando se tem de pensar com sofreguidão no pão diário, quando tua mente não dá paz, quando vc assume as rédeas de uma vida em que a batalha diária, o atestado logo vem certo: a vida é maior do que arte.
Espero estar errado. Espero apenas estar num dia ruim. Pode ser que tudo isso não signifique nada e logo eu esteja de volta. Sinceramente espero. Como o padre que um dia perdeu a fé e a recupera num mágico momento de redenção, espero ver a luz e ouvir o doce canto de uma musa no meu ouvido, recitando maravilhas de um mundo própero, com esperança. Espero sinceramente alcançar de volta a grandiosidade de mergulhar em mundos que estão há muito escondidos dentro de mim. Tudo para dizer: sim, a vida é forte, mas a arte prevalecerá, de mãos unidas - uma ajudando a outra - nos dando esperanças. Um grande abraço a todos.

domingo, julho 05, 2009

Carta terceira

Obs.: Caros leitores, peço o obséquio de lerem esta e as últimas duas postagens para compreensão do que está acontecendo. Tive de postar as três cartas uma atrás da outra porque elas chegaram rapidamente e eu estava sem internet para postá-las.
Chegada
"Albert:
Bem, cheguei... Estou dentro do internato, onde fui muito bem recebido pelos meus parceiros de sorte... O inferno, até agora, não é assim tão ruim.
O Pastor me liberou os livros de poesia que o Bruno me emprestou, meus textos de poesia que trouxe pra cá, liberou que eu escrevesse e também que meus textos possam sair da Instituição. Isto é ótimo, meu amigo! As coisas estão, apesar de tudo, caminhando...
Obviamente tenho de cumprir os mandamentos de Jesus, dado como terapia obrigatória da casa. Cuidar de banheiro, cozinha, pátio, quartos e rezar, rezar, rezar, rezar, com três ou quatro altos por dia. Haja!!!
Pra você entender, estou preso com companheiros, na maioria adolescentes que para se reabilitarem, seguram no saco de Cristo: terapia dos pentelhos divinos! São loucos que se apaziguaram e precisam de lago para acreditar ou segurar.
Amigo, estou bem. Gostaria de estar tocando minhas coisas ai fora, em liberdade, escutando as músicas que quero. Tudo bem, já as decorei, estão dentro de um verdadeiro “bar dentro de mim”, onde não há credores ..para me importunar, nem os desgastes físicos, afetivos e emocionais, não há a “inteligência cluber” dos inúteis e caricatus “artistas curitibanos” pra me sacanear!
Neste bar, feito de papel, linhas, tintas e memórias (já que o tempo na instituição é parado), dialogarei com várias reflexões que versarei sobre cultura, pessoas, instituições, políticas e suas interseções. Histórias dos filhos-da-puta, dos traíras, dos oportunistas, dos babacas, mas também, histórias dos bons, dos melhores, dos exemplares. Albert, gostaria de lembrar que “não existem feitos, apenas versões”.

Para não enlouquecer aqui, falei os falsos e verdadeiros, do SIM e do NÃO, do MIM e do SÃO.
Então Albert, viva aos poetas de janela que nunca botaram o pé na vida; viva as mulheres de Curitiba impaludadas e angelicais que são devassas na cama, fazendo seus maridos secarem roupas entre os chifres; viva aquela mulher corneada que saqueia os bens do amante e o impede de ter acesso ao seu computador, instrumento de trabalho; viva a papuda! Viva aos meus amigos que são amigos de meus inimigos; viva aquela que se diz “empresária” e divulgadora da “cultura” e sua vagina; viva esta puta que rouba o dinheiro de seus otários; viva o amigo (da onça), que vive com seu papai e mamãe, é cagão, não sobe no palco, e ainda, descansa seu saco no sucesso dos outros; viva os artistas que morrerão de tétano por não terem cortado o cordão umbilical e fazerem Arte, a Arte “que não abre concessões as facilidades”.
Como diz o poeta: “Assim até eu!”, né Thadeu?
Albert: por favor, bate a máquina pra cuidar, para desespero dos meus inimigos ou quem quis me calar.
Obrigado por tudo, mande um abraço para nossos comparças ai fora, um beijo pro meu irmão, e um beijão pra mulher que amo!
Valeu!

beco
sem bandeira ou beijo
pela passeata do desejo
empunho as certezas
que descreio:
o país que não vejo,
o amor que não veio,
a palavra que não tenho.
na multidão, aflito
prorrogo o meu grito
e o ritmo das estrelas.
assisto,
meio esquisito,
ao fogo do meu signo
dentro do labirinto
sem fim e sem começo,
tudo aquilo que tento
é beco.
e que assim seja,
sair da vida cedo,
amanhecendo
com o coração aceso.
Jorge Barbosa Filho"
Só lembrando o site do Jorge: http://www.myspace.com/jorgedoiraj

Carta Segunda (de Jorge Barbosa Filho)

"Oi, Albert:
Parece inevitável minha internação. Não que eu não necessite. Preciso me curar e descansar um bocado do estresse que vinha sofrendo ultimamente. Descansar das pessoas, dos fatos, dos meus erros, dos erros dos outros que me jogaram nas costas, Descansar um pouco do farfalhar bovino da cena cultural de Curitiba. Descansar do amor, do venenos que causei nas mulheres, dos amigos da onça, das mesmas conversas, dos mesmos.... e dos ciúmes que minha obra, erros, acertos e postura causam Não gostaria de ir para uma Instituição evangelica, onde se reza pra cacete, a terapia é limpar pátio, banheiro e cozinha, futebol, censura de livros arte e música . Bem este é o erro a pagar pela minha ousadia, coragem, e não contentamento com está posto...Preciso me tratar e ao mesmo tempo tenho a sensação que todos querem me retirar de circulação ... do conv..vio social. " Sou um estorvo... um tumor"" .Bem não há mas nada a fazer... nesta minha jornada descobrirei quem realmente está ao meu lado... quem são os reais amigos .. que se pronunciará , com coragem que é meu inimigo... quem são os amigos dos meus inimigos.... e pricipalmente... quem é o inimigo dentro de mim.... Albert, para não enlouquecer.... escreverei para vc, como uma forma de terapia, fazendo minha catarse, depuração, e possivemnte, minha redenção.Conto com vc e com o Bruno... já que não confio mais em ninguém.Escreverei estes artigos com o título de "Lobo em pele de ovelha... cartas para Albert Nane " ou "Bar Dentro de Mim" sei lá.....Será uma mistura de ficção , reflexão, realidade, loucura mentiras, verdades... onde abordarei as pessoas, a cultural, a sociedade.... meus sentimentos.Tomarei cuidado para quando falar coisa que as pessoas querem esconder que acham que depõem contra elas .. e deixarei claro as pessoas que valorizo..Conto com vc e Bruno para esta jornada....Peço que deixe em sigilo o nome da instituição onde estou e não revele para ninguém que eu não autorize entrar em contato comigo...Eu te agradeço imensamente.No meu myspace existe várias fotos que vc poderá utilizar, divulgue os textos nos blogs combinados...Outras pessoas estarão cuidando de outra parte..Meus inimigos ficarão furiosos de saber que mesmo fora de circulação... eu ainda agitoToque fogo!!! e me ajude sair bem daqui,
Conto com vc...Obrigado... Jorge."