sábado, março 28, 2015

Improviso espontâneo, de repente e tal, vai que vinga

Ela, deusa branca e impenetrável, 
senhora neutra na metafísica de um
                                  dia  
                                       a
                                           dia
                   qualquer
me deu um vislumbre concreto entre
vida e morte
e a merda toda é que eu não sabia 
qual das duas mais me apetecia
na curra indecifrável de 
minhas mais 
loucas
cosmologias (ensaiadas)
encurralado em mistério forjado
a vida seguia
    c    o  r        r  e        n    d        o
anasalada 
indecisa e castrada
como prostração divina diante
inesperada surpresa superada
de mortal realidade 
                            de 
                                 um 
                                    mortal 
                   qualquer
qual seja, talvez, linda percepção
sul e norte
ao mesmo tempo unidos consorte
bússola definitiva de incerteza
moralmente pairando
como mote
irremediável
de tudo que é conflito
entre sentir e o que 
(as) s    e   n   t  e
diante dela, ó, deusa, 
branca e impenetrável. 

sexta-feira, setembro 12, 2014

Wallace, você provocou uma das maiores dores de minha vida

Seis anos da morte de um dos maiores escritores do século XXI (e ele apenas começou)

A definição e função da arte é uma coisa bastante problemática. Não vou nem entrar nos méritos e perrengues ontológicos da coisa; a mim, que é o que me basta aqui, trata-se de fundamentalmente carregar um poder de expressão interior intenso com almejos estéticos fundados em premissas já estabelecidas (o que já é complicado, porque tradições são postas por água abaixo, principalmente em tempos pós-modernos). Esse poder não é mero “jorro sentimental no papel”, assim for temos um bando de desabafos insossos. É, au contraire, expressar-se com esmero tal que o individual torna-se coletivo – universal. Em outras palavras, temos conceitos que o titio Aristóteles já balbuciou lá trás: mímesis e catarse. Não é de se estranhar, então, que minha homenagem aqui enverede por este caminho, qual é: David Foster Wallace abordou em grande parte de sua obra o tema da depressão, dos demônios interiores, da impossibilidade inata de comunicação integral, dos intricados e misteriosos processos que vão da minha condição emocional perante sua condição emocional, enfim, dá pra sacar logo qual é a pegada. O lance é que esses temas provêm de uma obsessão individual (creio que o termo certo seria “pessoal”) do próprio autor, eternamente às voltas com pepinos emocionais bastante sinistros que, provavelmente, geravam angústias e indagações tortuosas sobre os temas adjacentes. Ou seja, sua obra surge de questionamentos internos muito pessoais e caros a si; Wallace joga a expressão de si com tanta ânsia (ok, é mera especulação – não estou escrevendo aqui um artigo acadêmico, não me encham o saco) quanto um iniciante poeta querendo destilar sua dor de cotovelo porque a menina lá não lhe dá a mínima bola. Entretanto, seu esmero linguístico, seus conhecimentos formais a respeito de literatura, seu estilo (desenvolvido ao longo do tempo, naturalmente) e seu senso estético moldaram um texto completamente universal, tocante e arrepiante. Porra, basta ver que ele tem o apelo de um autor de autoajuda enquanto era um intelectual brilhante e puta escritor. Ele não tem apenas leitores, têm fãs. E, meu, quem dizer que isso em literatura séria não é um feito, que volte à análise de “Quem mexeu no meu queijo”. Pessoas do mundo inteiro agradecem-no pela “força” que receberam (sem pedir) lendo obras como “Infinite Jest” ou contos como “Good Old Neon”. E quando, seis anos atrás, o mundo recebeu a notícia de que este homem sucumbiu ao seu maior inimigo e se suicidou, o panorama sentimental dos fãs era desolador. Coisa rara, amigos, em literatura, mas não na música, por exemplo: sentir a morte de alguém como se fosse um irmão ou amigo querido distante. Para mim, a dor foi algo um tanto excruciante (ok, sou hiperbólico e não foi como perder um ente próximo mesmo), porque jogou na minha cara uma desesperança imensa. Explico: como, deus, como um homem que escreve hinos antissuicídios tão poderosos, um cara que traz tanta ênfase na falibilidade humana como condição natural e contornável, um bastião contra o mal do século vai lá e se mata?? Porra, ele deu esperança a muita gente em condições depressivas e coisa e tal e de repente sucumbe à porra toda?? A arte perdeu pra realidade. É duro. Mas aí tem uma coisa que eu esqueço e logo volto a lembrar: não sabemos definir arte de vez, mas tem coisa que sabemos e acho que ninguém duvida – ela é eterna. Seu autor morreu, mas sua expressão estará lá. E essa é o grande lance: Wallace estará ajudando muita gente contra o suicídio daqui pra muito tempo. Sua obra é eterna e todo seu talento estará. Descanse em paz, meu querido. Porque, a julgar pela sua obra que ainda existe e sempre existirá, você está apenas com os olhos fechados... mas vivo.
Um hino contra o suicídio (não sei o nome do cara, mas sou eternamente grato a ele, pois ele traduziu o que nunca foi traduzido por aqui): Good Old Neon, do livro de contos “Oblivion”.
É longo, mas vale cada palavra. Com direito a lágrimas.

Regozijem-se. 

http://projeto-oblivion.blogspot.com.br/2012/09/bom-e-velho-neon.html#comment-form

quarta-feira, janeiro 15, 2014

IV (Work in progress)

Pesadelo narcisista:
não conseguir ficar só
com seus pensamentos.

memento mori
como única verdade
num promissor oceano
de sentimentos.

e se, grosso modo,
não se abster, alcoólico,
de um fundamento nobre,
e querer viver?

morrerá, é claro, este voto
egocentro informe
dentro dum esgoto in love
com apetrechos de morte?

(Qual a esperança dos homens fadados
inexoravelmente,  meu deus, a um fado tipo português mais do que ao ethos grego?)

terei eu força suficiente
para caminhar
por uma destas belas ruas
em chuva cinzenta
sem estar lá?
conseguirei ver, de olhos fechados,
beleza nas paisagens sem cor?
pois admite-se a inércia de um olmo
sem sentir-lhe o movimento com o rosto
agarra-se afoito
insubstancial engodo
como salvo-
conduto
à fragilidade da vida
(e não se tem nas mãos
mais do que rasas permutas
entre o “eu” e o “você”.)

Sentir é tão-somente a única verdade.
O único mistério, posto que
é tênue e concreto
lado
a
lado
com seu mistério.

E se, nesta insustentável equação,
uno-me aos (h)unos,
explorar vãos
em busca de possíveis enigmas
e nada encontrar
como possível solução?

Que roguem filosofias e abismos
jogarei uma pedrinha
no lago imaginário
da razão
dará conta
do outro lado
     a imaginação

(e talvez seja esta
          a única proporção
entre a vida e a morte
mais ou menos
entre_tantos “únicos” senãos.

(...)

sexta-feira, agosto 30, 2013

Devaneio breve

O aprendiz é o sonho do mestre.
É sentir-se indivíduo perante a massa de indivíduos (ainda mais no século XXI, por mais batido ou pedante que possa parecer, eu sei).
Quem lhe venera te fortalece nas fraquezas do espírito.
(e venerar são momentos frágeis na vida, se você tiver uma consciência meio que tendendo para o melancólico e mezzo pessimista)

terça-feira, abril 23, 2013

Working in progress III

III (etc. etc.)

Estou me sentindo miserável, Pai.
Estou seguindo um caminho
Não sei se é o certo.
Queria acreditar que sigo seus passos.
Mas seus passos são dados em falso.

terça-feira, novembro 13, 2012

Work in progress II

II (ainda sem título e primeira versão)

Trajeto incerto
alvorada em assalto.
Assim se desfaz
rápidos arautos
juventude e passado.
O saldo é inválido
as transações:
precárias.

Não caminhei por
                 estas vielas
                             tristes
quando nasci!
- como hei então
           de saber soberana

Tristeza, minha memória?

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Work in progress

1.ª versão.
Ainda sem título.
Imponderável atravesso
vórtice em canto
inefável trilho emotivo
sem resignação de derrotado
tampouco bravura e fúria.
contudo, desperta encanto
volitivo desespero cansado
meu destino
de pathos e tragédia
se perde nos pequenos enquantos
configura um herói
fardo parco, despedaçado:
através da candura sofrida
sua aura imprime
a um peito danado,
o itinerário de minha vida.
(...)

to be continued...

quarta-feira, outubro 26, 2011

Trapalium - trecho avulso central

Existem situações para as quais nenhum administrador foi treinado. E nenhuma faculdade tem a capacidade para prepará-lo.

Encontrei Marcos no corredor, em uma das inúmeras vezes do dia em que eu saía para fumar. Mostrava-se ele preocupado, com o olhar vago, vazio, emoldurado por sobrancelhas tensas, sustentando o queixo com rígidos polegar e indicador. Apoiava-se com o outro braço na parede e barrava o acesso ao bebedouro.

- Você tá bem, cara?

- Hã, como?

- Ce tá bem, Marcos?

- Ah, cara porra, meu, não sei o que fazer aí, cara...

Ergui o sobrolho.

- Ah, é que...ce sabe aí, cara, o Ronald, a história do cagalhão lá...

Sorri. Ronald havia atacado novamente no almoço, deixara um rastro fétido no único banheiro masculino do setor e a coisa parecia que durava umas boas horas, contrariando as leis da física, da química ou o que quer que fosse natural que possa ser agredido ou transgredido. Obviamente ele não errara o alvo, isso seria tão grotesco e grosseiro quanto descobrir uma bactéria com um par genético inédito na natureza. Mas havia sim restos de sua épica jornada pelo banheiro, crostas duras, coladas aqui e acolá na parte interna do vaso, que, à maneira de uma criança tímida agarrando-se ao vestido da mãe, não saíam do lugar nem com a saturação da força da descarga. O lixo estava em desalinho, transbordando, e parecia que Ronald apreciava uma forma excêntrica de dobrar o papel, fazendo um bolinho com ele e não dobrando-o como se faz para compor, por exemplo, um avião. Seria interessante o que um psicólogo poderia extrair daí. Piadas à parte, curioso era como alguns dos bolinhos, talvez mais extrovertidos, ficavam com a parte usada virada para fora, exibindo manchas irregulares e alguns até com pedaços sólidos minúsculos colados, uma pintura caótica que faria um vanguardista pós-moderno (?) lamber os beiços. Ao lado, uma tira pendia balançando vagarosamente grudada na pia. Outros vários pedaços de papel, de diversos tamanhos, espalhavam-se inertes por toda parte. No entanto, Ronald mantinha sua marca pessoal, seu selo de garantia, o "toque do gênio", aquela característica que permite a um crítico distinguir o trabalho do autor como único, pessoal e intransferível. Pois que o pior componente do quadro continuava sendo o odor incocebível, não humano, que assombrava o lugar. Invisível, permanecia ali apesar dos enormes e diversos esforços para exauri-lo, era o mais forte dos espíritos veladores de tumbas esquecidas. Um abutre chegaria voando para trás no recinto. E era, como deveria ser, a gota d´água para o harmonioso ambiente corporativo.

Enquanto me mostrava todo esse quadro de terror absoluto, Marcos deixava transparecer toda sua desconsolação.

- Porra, cara, e agora a faxineira quase me enrabou com o espanador, venho fazendo o sinal da cruz, xingou a mãe de todo mundo e depois foi falar com a Marília. Ce sabe, a Marília nunca ficou de frente com essas mulheres, não é ela que contrata, lógico e...

...e aí de repente, fiquei imaginando, aparece essa mulher descabelada, com o avental um tanto desalinhado para a direita, o espanador segurado com rigidez à maneira de uma arma, e a Marília levanta o olhar de sua mesa e assiste essa pobre criatura em estado de fúria quase psicótica lhe jogar impropérios sobre cagalhões, papéis manchados de merda, bundas gordas e desrespeitodas, jornada de trabalho de 12 hrs em dias ruins, salários aviltantes, autoestima deficiente, o preço do bombril usado para ajustar a antena da TV, jogadas miraculosas para driblar o funcionário da companhia de luz que vem cortar a energia, os três ônibus lotados que se deve pegar para chegar ao trabalho e coisas do gênero.

- É óbvio que a coisa toda iria estourar na minha bunda.

- Bom, parece que na do Ronald elas estouram sozinhas.

- Ah-ah. Você ri, mas a Marília estava furiosa, falou até em fazer terapia e tal, pediu que eu tomasse alguma medida urgente e tudo. Só esqueceu de dizer o quê. Quer dizer, eu ouvi a palavra "comunicado". Mas porra, ce já parou pra pensar em como fazer isso?

- Eu não, mas tenho certeza que você já gastou um bom tempo.

- Pois é...porra, cara - alisou a nuca, baixou a cabeça - olha, véio, eu vou te dizer, você vai todo dia pra faculdade, estuda, são horas que você se fode tentando decifrar o que aquele professor com discurso embolado e ego límpido tentou dizer naquela aula xarope, incontáveis cervejas que você troca com seus amigos junto com experiências sobre o ramo, e nunca imagina que vai enfrentar uma coisa dessas.

Levantei os ombros. Era realmente uma situação delicada. O grande imbróglio residia no teor do comunicado virtual que Marcos deveria enviar. Evidentemente o comunicado seria passado em todo âmbito do setor, devido à grande sensibilidade corporativa em evitar o confronto direto com o transgressor ou mesmo porque a falta de sessões com um terapeuta não preparou Marília para aplicar uma advertência individual. O fato é que Marcos não conseguia encontrar as "palavras certas". Estava familiarizado com pedidos requerendo que os colaboradores mantivessem a mesa limpa em prol do genial e inventivo 5s ou que os processos agora deveriam impreterivelmente serem marcados no largo quadro branco no centro da sala para que a administração pudesse organizar a pauta e saber em que pé andavam as coisas, mas não para censurar odores anais e orgias intestinais e higiênicas no banheiro. Dizer somente para que "zelassem pela limpeza e organização do W.C." não daria, de forma alguma, conta da situação, pois provavelmente colocaria o problema em termos simplórios, e definitivamente a generalidade da mensagem não causaria impacto para que ela fosse cumprida. Em outras palavras: o problema continuaria acontecendo. Mesmo porque Ronald continuaria defecando e não tendo controle sobre o cheiro de seus dejetos. Mas como colocar a coisa de forma satisfatória? Os termos técnicos, ou mais precisamente os detalhes, não poderiam ser explicitados, por razões óbvias. Nem em termos sutis: toda escolha soaria nada menos do que burlesco ou irreal, ou mesmo uma piada de mau gosto aplicada por alguém sem profissionalismo ou de têmpera essencialmente juvenil. Na condição de homem das letras, solidarizei-me com a situação, mas cansado e prevalecendo a condição de homem puto e fanfarrão, sugeri que ele descrevesse ipsis litteris a monstruosidade do acontecimento. Em verdade, admito que não fazia ideia de como dar solução ao problema. Não que não me importasse: sofrendo as intempéries dos caprichos de minhas entranhas, era frequentemente forçado a correr ao banheiro no turno da tarde, eu mesmo sofrendo ao enfrentar uma odissédica prova de resistência ao fechar a porta e sentar no trono dos justos. E me importava também com Marcos, que é uma boa pessoa.

A hipérbole destas linhas parece exagero (ah-ah!). Não é, e convido meus leitores a darem um voto de confiança.1 Creio que todo ser humano já sentiu um cheiro tão forte e subversivo que as narinas começam a arder (realmente). Esses saberão a amplitude do drama e ainda crerão na humildade de minha narrativa. Já vi uma chamada em um site médico, certa vez, dizendo que alguns tipos de câncer cerebral podem fazer com que o paciente sinta frequentemente um cheiro de queimado, inexistente. Fico imaginando, no caso de nossas linhas anteriores, em que o odor é real e quase palpável, que espécie de vis conexões neurológicas se processam dentro de nós enquanto a mente tenta compreender por que o cheiro de determinados dejetos humanos conseguem fazer arder nossas mucosas superiores. Que substâncias estarão ali presentes para configurar tamanho afronta à sensibilidade de nossos nervos? Nem a amônia presente na urina transtornada de bêbados contumazes consegue tanta agressão aos sentidos. Quer dizer, nunca fui um às da química, mas é difícil compreender aquilo que não vemos (tanto fisicamente quanto psicologicamente - é só ver o caso clássico dos índios que não enxergavam um barco se aproximando porque nunca tinham visto aquela coisa antes) e quando este ente invisível tem a capacidade de atingir com ímpeto ou violência um de nossos sentidos, a coisa fica ainda mais complexa. Aquelas moléculas todas minúsculas subindo pelo ar, adentrando nosso nariz, e - perdoem-me se demonstrarei alguma incoerência básica de anatomia ou fisiologia humana: nunca fui tampouco um às das ciências - quem sabe indo até os pulmões e dali para a corrente sanguínea, digo, aquelas moléculas minúsculas responsáveis pela imcompatibilidade com o ser humano, como o gás carbônico, e aí indo parar, por exemplo, nas artérias do cérebro. Já foi mais ou menos provado que a ingestão de algumas substâncias, que de forma nenhuma imaginávamos ou ainda imaginamos nocivas - como sei lá, sazon, podem provocar ou ajudar o aparecimento de focos tumorosos em determinadas regiões anatômicas. Não creio que seria muita viagem conceber um quadro em que, visto o desconhecimento da origem ou natureza das moléculas presentes ali naquele banheiro, nosso cérebro poderia ser afetado por exposição prolongada. Se bem que a conclusão lógica do raciocínio apontaria para um axioma que, no mínimo semanticamente, soaria absurdo: fezes podem causar câncer. Mas isso tudo são vãs filosofias (??).2

De repente tudo aquilo começou a me deprimir. Não consegui mais me defrontar com a cena à minha frente. Tudo me pareceu triste demais e irreal, como uma encenação barata realizada por um paciente sádico de um hospício qualquer, para quem, por alguma razão obscura e deturpada, deram o poder de criar algo. Olhei para Marcos e ele deve ter entendido que a mesma desconsolação que lhe assolava tomou conta de mim, apesar de por motivos distintos. No final das contas estávamos no mesmo barco, acordando cedo todos os dias, caminhando ou pegando ônibus para chegarmos no mesmo local sempre, enfrentando situações diferentes e iguais ao mesmo tempo, uma rotina para a qual teoricamente nos prepararam por anos a fio, não somente na faculdade, mas na vida inteira. Tudo muito alheio, sem sentido.

- É, cara, sei lá. Boa sorte, meu. Mas eu tenho que ir, cara, vou fumar ainda e se demorar muito vão começar a notar. - foi a única coisa que consegui dizer a ele. Virei as costas e deixei ele lá, às voltas com os seus demônios administrativos. Estamos todos sós, no fim de tudo. E isso, definitivamente, nenhuma faculdade poderia estar apta para nos preparar.


1 Ao começarem a ler este texto já deram, o que é meio óbvio. Mas eu sou óbvio.

2 De terceira categoria mesmo para um boteco.

3 Humanas e de um tipo específico, conjuradas sob contextos ainda desconhecidos, que fique claro.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Mais um de Jorge Barbosa

Enquanto meu ócio continua vigente, poema novo de Jorge Barbosa Filho.

assinatura


tento ir em prantos
mas choro de tanto de rir
em cantos escuros
onde sou muitos e tantos.
minha solidão é fiel
ela não me deixa só,
ando por aí contido
como espelhos.

não procuro cheques,
sheiks, ou o X da questão.
procuro um antídoto
algum nome, um som
sem bilhetes suicidas.
ganhei-me pelas frestas
e mesmo sendo assim,
dei uma imensa festa
dentro de mim!

até que enfim,
fiquei lindo a noite toda
para esperar por mim,
mas não fui, não vou, nem vim.
as luas dos meus lábios
incendeiam-me insensato
nesta espera sincera,
esqueço quem sou
e lembro quem flui.

passaria séculos convicto
em ser uma oitava acima
de marte e plutão.
mas meu amor não cabe
na boca de um vulcão.
meu umbigo é um big-bang,
apenas um improviso,
uma fuga de jazz band.

não me levei em conta,
não botei na ponta do lápis.
passei na prova dos nove
mas me falta um pouco de álibi.
escrevo com minha sombra,
sem sombra de dúvidas...
nas minhas ilusões, eu me achoe assino em baixo, em baixo.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Eles sofrem para se sentirem seguros.

E eu sofro de que maneira? Não seguro, mas até de certa forma masoquista. Procurando, talvez, o inevitável, se é que podemos saber o que é o inevitável ou se ele é o evitável que desafiamos todos os dias e se torna ine- tão só e somente por causa de nós mesmos.

Quem sofre para se sentir seguro, FMAN, de quem vc fala?

Dos artistas (argh) que têm uma vida relativamente tranquila e não trabalham e podem escrever e criar uma infinidade de coisas e dizem que sofrem e o escambau, mas porra, perto de mim, sofrem o quê, sonofabitches, e yeahhh, é isso aí.

FMAN, vc veio da classe média, meu caro. Vc acha q tem uma história de vida triste e épica, mas meu caro, o que é vc perto de um sujeito que dorme nas ruas e desde o nascimento enfrentou uma existência não menos do que limitada? E aqueles que, independente de escala social, vivenciaram pesadelos indiscritíveis que transformam a psique humana? Ou, além, quem é voce para, pretensiosamente, saber que o teu pesadelo interior é maior que o de qualquer outra pessoa?

...Bom, eu sei que estou errado, mas minha autopiedade muitas vezes me move pra frente, como um guerreiro que perdeu a honra por uma bobeira e agora vê a chance única de retomá-la perante uma missão de dor e agonia. Quanto mais o pé do Antagonista pressiona meu rosto na lama e faz me sentir uma merda, a ponto de retornar a minha infância e gritar como um animal desesperado de ódio e vergonha (se é que este último atributo exista nos animais - eu, pessoalmente, acredito que não, acho que nestes cérebros "subdesenvolvidos" não existe a mediocridade de um sentimento como a vergonha, e sim, talvez, o da humilhação, que é diferente pelo fato de um outro ser ter o domínio absoluto de tudo o que lhe pertence, seja a mente, o físico, e, se ele quiser, até mesmo o cu).

...FMAN, eu acho que vc tem sérios problemas. Primeiro, o antagonista que você criou é somente isto: a materialização do seu fracasso nos seres que vc julga supostamente terem mais oportunidades do que você. Ou, comme on dit naqueles que você secretamente inveja e, incapaz de assumir isto integralmente, vira o ódio contra. Sem, realmente, nenhum argumento consistente. Estes de que vc fala, sofrem sim, e sofrem igual a vc. Vc sabe que a sensibilidade deles também está muito antenada.

(...)

É hora de um narrador entrar e mediar, ou, simples modo, explicitar esta conversa. 1.) ponto: o primeiro sujeito que interroga e depois divaga é FMAN, o suposto autor deste blog. 2.) ponto: o interlocutor que aparentemente questiona e provoca/indaga/contradiz FMAN é o encosto.
(Que encosto, porra, pergunta-se o possível leitor deste blog)
Cara, é uma longa história. A única coisa que posso dizer é que este blog possui seus vários nomes por causa de uma longa luta entre FMAN e seu encosto (sim, ele é bem específico e só dele) - os nomes caracterizando o estágio da luta entre os dois. "O encosto está em todos nós", como está atualmente titulado significa, nada mais ou nada menos, que...Ahhhrgh..que porra é aquela, que merda significa tudo is..t...aahh! XXXX

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Mais do Jorge Barbosa

Enquanto este que vos escreve mantém-se inútil e estagnado em matéria de criação cultural, outros poetas estão colocando a mão na massa: com vocês, mais um poema de Jorge Barbosa Filho.

Nossa Senhora dos Capilares

Sou o lobisomem

devoto de Nossa Senhora dos Capilares,

a única que acha cabelo em ovo.

Ela é de origem portuguesa

e sua epifania se deu numa barbearia.

Tem pelos nas costas, usa bigode.

Uma Santa que nem o diabo pode.

Drag Queen beatificada,

padroeira dos bichos hisurtos,

dos hippies e das vassouras de pelo.

Santa de dar inveja aos carecas.

Pois tem vários cipós debaixo do braço,

perucas nas pernas e cultua suíças.

É a Santa que o Tarzan cobiça!

Nossa Senhora dos Capilares! Orai por nós!

Sua primeira oração foi “As Mentiras Cabeludas”

e posteriormente, “Sabão Cra –Cra”.

Protetora dos pelos do nariz, tufos na orelha,

da família circense, em especial, da Mulher Barbada.

Uma Santa de arrepiar os cabelos,

mas pelo sim e pelo não

é a Santa de minha devoção.

Bento Pinto dos Santos

(Jorge Barbosa Filho )

sexta-feira, agosto 06, 2010

O diabo loiro está de volta!

E eis que o Jorge me envia um de seus novos poemas. E pelo jeito ele continua botando pra fuder. Segue:



flor de lisboa


(para Ana Griffo Antunes Coimbra)


perguntei por cantar
por que canto?
enquanto encanto a dor
num espanto!
luas e sóis na minha voz
e a canção por um fio.

ah! fina flor de lis boa
ah, na boa, coimbra!
és leve águia e leoa
e soas entre as sílabas.

teço teu fado alado
por isto grifo teu mito
e teu sorriso de fato
finda meus conflitos,
a fúria dos ventos impunes
ante a tudo, que antes unes...

ah, naquilo que musico
há! ana, ana griffo
dá-me o teu charme castelã
deixa-me rei dos teus fãs.

oceânicas peguntas!
cavalos marinhos
acesos em nossas bocas,
azuis, azuis, azuis do mais íntimo
do espelho que despe-se a toa:
nunca vi tantas mulheres numa!

ah! braços de porto e gal
à sombras de caetanos
e caravelas amamos
em nossas praias de mel e sal.

contemporaneamente antigo,
é meu beijo de porquês,
pois este poema é um jeito
de viajar um pouco contigo
sem que as malas as tenha feito
assim te amo em português...

Jorge Barbosa Filho




quinta-feira, julho 29, 2010

Lirismo alheio

Terceito autor (neste caso "a") que publico aqui no blog, vale a pena conferir o blog de Vanessa Rodrigues: www.vanrodrigues.wordpress.com
Um magnânimo exemplo de lirismo segue no texto a seguir, em que a autora alcança um patamar invejável de simbolismo e significado.

poética da concha

o bicho mais mole cria a concha mais dura, na medida exata de sua existência . expele o mal
rodeado em madrepérola. o mais inofensivo é o mais impenetrável dos bichos da
praia.

e é de dentro para fora que constrói essa casca. e do segredo de sua natureza, do mistério
daquilo que é feito, ele forma o concreto de sua cidadela.

mas só cabe um em sua fortaleza miúda.

- Vanessa Rodrigues -

quinta-feira, maio 20, 2010

LOKO DENIS E O MOMENTO METAFÍSICO

Pintura por Maria Luísa C. Fumaneri, 2010. Técnica: pincel de Paint.

Joaquim pegou o prato de apoio do pires e, com as unhas, começou a arranhar e arrancar pedaços da parafina acumulada pela queima de diversas velas. Loko Denis acompanhou o processo com olhos curiosos e inquisitivos. Focava-se na mão, em todos seus movimentos bruscos, os dedos grossos e as unhas ligeiramente sujas, empurrando com desajeitada força os tocos brancos. Naquele breve momento de reveladora filosofia, Joaquim falava – pausadamente – amenidades que Loko Denis não quis ou simplesmente não ouviu.
Pensava que numa situação dessas ele não saberia o que fazer, simplesmente não teria o conhecimento para saber que, para tirar aquele amontoado de cera branca de um prato deveria ser necessário arrancá-lo com a mão, e não com o uso de um detergente e um Bombril, mesmo pelo motivo de que apenas isso não funcionaria. Nesse momento, Loko Denis descobriu que nada sabia sobre a parafina da vela e, praticamente, nunca havia tocado uma antes. E isso demonstrava o quão sábio Joaquim era, tão somente pelo conhecimento empírico que acumulava. É lógico que essa percepção não vinha a Denis dessa forma, mas sim em códigos mais modestos, talvez suficientemente simbolizados pela figura do herói e da qualidade empática da admiração e a consequente afeição indefinida. Indefinida porque não-afeição, por mais paradoxal. Mas longe de compreender, Denis não precisa compreender. E, quando mais tarde, mais maduro já a caminho da meia-vida, meditava sobre o período, gostava de pensar se as pessoas mais jovens que o conhecessem agora também teriam essa percepção de sua própria figura, quando levantasse e jogasse fora os tocos das velas ou qualquer outra ação aparentemente banal e desinteressante, mas enquanto detalhe, figurava sublimidade inexplicável, talvez comparada ao vazio e preenchimento (!) da divulgação da Teoria do Caos, e, assim, essas pessoas achariam que ele era um homem sábio, um cara vivido, um cara com MUUUITO conhecimento empírico para dar. Nesta época viria a ter uma resposta.
O que importa é o tempo presente. E neste, Loko Denis saíra de seu repentino e profundo transe, porque Joaquim já terminara de jogar fora os tocos e acendia uma nova vela, deixando cair a cera quente sobre o prato e firmando-a.

quarta-feira, abril 28, 2010

TRAUMA

O maior herói que eu já desmistifiquei
foi eu mesmo.

terça-feira, março 30, 2010

NÃO HÁ NADA

Sim, companheiros. O encosto avançou novamente. Nada a falar por enquanto. A batalha ganha novos rumos, ainda indefinidos.

Como diria um amigo eu, assalamom!

E boa sorte a todos. Fiquem londe das drogas, camaradas.

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Poema novo de Jorge Barbosa Filho



Eis mais um poema de Jorge Barbosa.

Visite também http://www.myspace.com/jorgedoiraj

não me ame nunca


não me ame nunca
dizem, sou muito perigoso,
pois se te beijar a nuca
acabo te roendo o osso

da tua doce espinha
falam, é a minha arma,
pra me valer nas esquinas
e chegar ladino em casa.

não me ame nunca
dizem, sou muito pirado,
meus carinhos nas luas
não valem nenhum trocado.

acho que minha fama
não é assim tão pequena,
gritam, que só valho a pena
quando te levo pra cama.

não me ame nunca
dizem, sou muito bandido,
roubo sua alma e chuvas
e depois acabo fugindo.

perca a esperança então
rezam, sou homem e menino,
brinco pelo seu coração
que bate sempre arrependido.

não me ame nunca
dizem, que você me ama
enquanto tudo te espanta
não me ame nunca.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

FMAN B-SIDES

Depois de certa ausência, volto com mais um infame FMAN B-SIDE, os textos obscuros de uma época mais obscura ainda...com mais um poema que meu cérebro não recorda ter escrito.

(e novamente, pra quem não sabe do que se trata a série, procure o primeiro post)

a nossa música a gente inventa
conforme o tempo partido
de nosso amor assente
um poema de amor ferido
carta sentimental passada
nós escrevemos qualquer dia desses
enquanto esperamos tudo passar
ou mesmo na noite antes de despertar
nossas fúrias e desinteresse
o vazio da saudade
este acordará no tempo certo
de um tempo que lembramos perdido...
para sempre.

***
Pois é. A tosqueira continua.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

GENIAL

Bom, para evidenciar o meu ódio ao evangelho do vegetarianismo (vejam bem, antes de me encher o saco, tenham em mente que não tenho nada contra àqueles que têm essa opção, respeito é tudo; cada um tem o direito de comer o que quiser - o que me fode é aquela atitude comum à recém-gays, recém-evangélicos e vegetarianos que te olham com nojo porque vc lambe o sangue de uma picanha suculenta, que tentam a todo custo te converter e te impor a verdade de sua verdade), posto aqui uma pichação genial encontrada perto de minha casa, que ilustra bem o que penso:


CARNE É CRIME

(e logo ao lado um outro cidadão, que imagino melancólico e muito perspicaz, escreveu:)

FOME É FODA

Du caralho. Neste pequeno terrorismo poético urbano ele resume tudo. Não vou explicar minha interpretação. Isto fica pra cada um.
E volto a dizer, respeito e admiro a fundamentação argumentativa dos vegetarianos, mas não venham me encher o saco. Gosto de carne, já vi todas as atrocidades cometidas contra animais, mas, sinceramente, não me tocou de forma tal a me impedir de saborear seus corpos. Cadeia alimentar é cruel - poderia ser menos, é claro, com métodos mais adequados e menos atrozes.
Enfim, é isto. Preguiça de levar mais adiante.

domingo, dezembro 20, 2009

FMAN B-SIDES

Olá, companheiros. Neste domingo quente e sórdido, começo a lembrar de algumas coisas daquela época de loucuras. É impossível pensar nisto sem invocar meus amigos insanos que me acompanharam. Portanto, nesta terceira edição de meu B-sides, posto algo relativo ao tema. Como sempre, o poema não tem fim. A diferença é que eu me lembro de compô-lo, mesmo que vagamente. Bem, acho que eu estava sobre certa influência de Ginsberg, mas enfim...

meus amigos estão loucos
perambulando cheirados pelas ruas
no dia seguinte à noite da desforra
onde o acaso não lhes deu nada
nem uma resposta
nem uma dádiva
nem um bilhete marcado pra dentro de suas almas
estão preocupados
com suas barrigas proeminentes
chorando através do útero dos velhos barris de cerveja
estão assistindo tv
esperando a vinda do messias vestido num terno em liquidação
mas a ele só resta sentar e liquidar
uma garrafa de whisky num fim de noite qualquer.